Delírio da fé; Por Walter Pinto Filho

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Uma crítica à crença que, ao prometer o inalcançável, acaba por mutilar a própria vida.

“Amar a verdade é odiar a ilusão.”Santo Agostinho, Confissões (X, 23)

Há séculos, pessoas se dizem mensageiras da salvação, mas são algozes da liberdade. Em nome de uma fé mutilada, pregam o desprezo ao corpo, ao prazer e à alegria. Transformam a existência em penitência. Contra eles, ergue-se a lucidez de quem recusa o delírio como virtude.

Respeito os que creem, mas rejeito o uso do medo como doutrina. A crença autêntica nasce da liberdade, não do terror do inferno. O ateu honesto — que vive com ética e ama a vida — é mais digno que o fanático que se esconde atrás de promessas irreais. A história recente, marcada por inocentes explodidos em nome de credos insanos, é uma prova inatacável dessa realidade sangrenta.

O fanático foge do mundo. Demoniza o prazer, persegue o desejo e glorifica a culpa. Mas o próprio Cristo declarou: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância.” É a vida com um propósito de ser. A fé verdadeira não mutila — ilumina.

O prazer entre um homem e uma mulher é o instante em que o Criador toca a matéria viva e sorri. Quem demoniza isso não é puro, é doente. Jejuns forçados, castidade compulsória, fuga da realidade — nada disso é espiritualidade. São atos hostis à carne e à própria vida.

Não sente à mesa com o fanático. Ele se diz “eleito”, mas é prisioneiro de um medo que veste de virtude. Usa Deus como álibi para o ódio que o habita. Ataca crentes e descrentes — não por fé, mas por pavor do que não controla. Não se curve: o “reino de Deus” não é uma herança futura, mas a centelha de justiça e ternura que sobrevive em meio ao caos.

Nietzsche enxergou isso. Com sua lucidez cortante, rasgou o verniz das instituições religiosas que transformaram o Evangelho em manual de punição. Ele não atacava o Cristo da compaixão — atacava os que usaram seu nome para construir tronos, templos e tribunais. O verdadeiro espírito livre é o que encara o vazio e, ainda assim, escolhe permanecer.

Religiões que se impõem pelo medo, que sufocam o corpo e castram o pensamento são asilos da covardia. Chamam de fé o que é fuga; chamam de pureza o que é medo do real.

“A fé começa precisamente onde o pensamento termina — mas jamais contra ele.” (Kierkegaard, Temor e Tremor)

E os que abraçam a existência — mesmo sem a promessa do além — caminham entre ruínas com a serenidade dos que nada esperam e, por isso mesmo, estão livres. E, ainda assim — este sopro breve e lúcido — é tudo o que temos.

Walter Pinto Filho é Promotor de Justiça em Fortaleza, autor dos livros CINEMA – A Lâmina que Corta e O Caso Cesare Battisti – A Confissão do Terrorista.www.filmesparasempre.com.br

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Ceará consolida elite da educação brasileira no Ideb; Brasil segue sem atingir metas do ensino médio

TRE rejeita tese do relator e mantém Federação União Progressista na chapa de Ciro Gomes

Quaest abre vantagem para Ciro, mas a campanha ainda reserva muitas variáveis

Emandas bilionárias e outros privilégios deve baixar índice de renovação de mandatos federais

Selo do TSE divide institutos; AtlasIntel apoia iniciativa e acende debate sobre precisão das pesquisas

Aval de Lula consolida Cid Gomes como candidato ao Senado e aproxima definição da chapa governista no Ceará

O Duplo Twist Carpado de Mauro Filho

Obtuário: Cid Carvalho, uma voz que atravessou gerações da comunicação e da política cearense

A chapa dos sonhos do governismo no Ceará

Jogando na defesa e no ataque, Romeu Aldigueri se torna referência no enfrentamento com a oposição

Ceará como um dos elos da nova cadeia automotiva mundial e a bad trip da nossa política

O silêncio de Cid Gomes não é dúvida. É método.

MAIS LIDAS DO DIA

CEO da VSM vai à AJE Talks e debate reputação como ativo estratégico para empresas

Ceará terá representante no júri do Festival do Clube

Mudança de rota de Romeu Aldigueri fortalece plano de Cid para PSB manter comando da Alece

Debate estreia campanha no Ceará, mas disputa real será pela narrativa nas redes

Ceará domina ranking nacional do Ideb e amplia liderança na educação básica