O curto circuito das democracias e os seus eletricistas devotados; Por Paulo Elpídio

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Os ensinamentos de Alexis de Tocqueville são mais relevantes do que nunca. Por meio de suas viagens pelos EUA e de sua obra seminal “Democracia na América” , publicada entre 1835 e 1840, o pensador francês nos alerta sobre a vulnerabilidade de nossas democracias, que são essenciais, frágeis e nunca verdadeiramente garantidas.

“Toda a vez que acende a luz do senhor Francisco Campos, há um curto circuito na democracia”, Rubem Braga

“Nos velhos moldes e através das antiquadas fórmulas institucionais, seria impossivel assegurar a existência e o progresso da nação”, Francisco Campos

“Gabinete do ódio”, “Núcleo de desinformação”, Comissão da Verdade” são os novos instrumentos de controle da opinião. Revestem-se de uma adjetivação de uso frequente em regimes autoritários. Não escapamos desse árduo aprendizado nas nossas tentativas pouco entusiasmadas para criarmos uma democracia “brasileira”.

Tocqueville lembrou, em um dos seus estudos memoráveis, que “ao lado de um despota, há sempre um jurista disposto a colaborar com um regime autoritário”.

Tivemo-los em apreciável reserva, mentes brilhantes e exemplares em momentos decisivos. Além de Chico Ciência”, como Campos era chamado pelos seus méritos notórios, não nos faltaram a segurança e a criatividade, na arte de emparedamento do Estado, de Alfredo Buzaid, Carlos Medeiros, Gama e Silva e outros de menor embocadura que não sobreviveram à sua subserviência.

Os cenários montados pelo arbítrio e pelas forças de controle social e político não são novos, tampouco recentes, no Brasil. Já nos servimos desses “controles”, antes. Em circunstâncias conhecidas, de tão repetidas.

Na Colônia dos vice-reinados, na Monarquia de dois imperadores marcados pelo caráter ambíguo dos Alcântaras, com Floriano, na Velha Republica e na nova, tantas vezes reinventadas.

No Estado Novo, criação modelar de juristas a serviço de uma democracia com Estado forte.

Em 1964, fomos governados em um Estado dotado de generais, marechais e anspeçadas e de uma “ditadura constitucional” bem aparelhada.

Em todos esses momentos e circunstâncias, fomos amparados pelos cuidados generosos de alguns juristas. O Estado Novo é uma tecitura cuidadosa de Francisco Campos. A este tratadista solene, “soi disant”erudito, sobre as ambivalências do Estado, temos muito a dever. A Constituição de 1937, ovo da serpente, do qual arrancou o Estado Novo. Em 1957, seus serviços e as teorias que engendrou nas suas leituras de textos fermânicis, retornou com a receita aperfeiçoada de um novo Estado Novo. O Ato Institucional e os seus complementos nasceram de uma arquitetura segura para o poder no Estado.

Na verdade, a teatralização de cenários recorrentes, põe a nu estruturas legais e juridicas que revelam a nossa inclinação ancestral para os rigores da autoridade e para formas pouco atenuadas de justiça e de liberdade.

Não é de admirar que de médicos e juristas — os curadores de gente e os “curadores” do Estado — estejamos tão bem servidos. Dos primeiros, pretendemos alcançar a sobrevivência. Dificilmente, entretanto, sairemos incólumes da astúcia dos últimos…

Paulo Elpídio de Menezes Neto é articulista do Focus, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação (Rio de Janeiro), ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC, ex-secretário de Educação do Ceará.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Ceará consolida elite da educação brasileira no Ideb; Brasil segue sem atingir metas do ensino médio

TRE rejeita tese do relator e mantém Federação União Progressista na chapa de Ciro Gomes

Quaest abre vantagem para Ciro, mas a campanha ainda reserva muitas variáveis

Emandas bilionárias e outros privilégios deve baixar índice de renovação de mandatos federais

Selo do TSE divide institutos; AtlasIntel apoia iniciativa e acende debate sobre precisão das pesquisas

Aval de Lula consolida Cid Gomes como candidato ao Senado e aproxima definição da chapa governista no Ceará

O Duplo Twist Carpado de Mauro Filho

Obtuário: Cid Carvalho, uma voz que atravessou gerações da comunicação e da política cearense

A chapa dos sonhos do governismo no Ceará

Jogando na defesa e no ataque, Romeu Aldigueri se torna referência no enfrentamento com a oposição

Ceará como um dos elos da nova cadeia automotiva mundial e a bad trip da nossa política

O silêncio de Cid Gomes não é dúvida. É método.

MAIS LIDAS DO DIA

CEO da VSM vai à AJE Talks e debate reputação como ativo estratégico para empresas

Ceará terá representante no júri do Festival do Clube

Mudança de rota de Romeu Aldigueri fortalece plano de Cid para PSB manter comando da Alece

Debate estreia campanha no Ceará, mas disputa real será pela narrativa nas redes

Ceará domina ranking nacional do Ideb e amplia liderança na educação básica