Quando a mentira aprende a falar em nome de todos; Por Gera Teixeira

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A mentira, quando nasce, é frágil. Vive de cantos escuros, depende do silêncio e teme o confronto. Precisa esconder-se para sobreviver. Mas há um momento em que ela descobre outra forma de existir. Em vez de se ocultar, aprende a se apresentar. Abandona a vergonha, veste formalidade e passa a ocupar espaços de visibilidade. Já não se defende. Afirma-se.

Esse é o instante em que deixa de ser apenas uma falha moral individual e passa a adquirir dimensão coletiva. Não se sustenta pela coerção, mas pela aceitação. O que antes causava indignação passa a provocar resignação. O que era intolerável torna-se familiar. E a familiaridade é a forma mais eficiente de anestesia.

O povo, movido pela necessidade de acreditar, muitas vezes entrega sua confiança como quem busca amparo. Não por ingenuidade, mas por esperança. A esperança é um gesto de dignidade. O problema surge quando ela é recebida não como compromisso, mas como oportunidade de manipulação. A palavra perde seu valor original e passa a ser instrumento de conveniência.

Com o tempo, as estruturas que deveriam preservar o equilíbrio começam a refletir as mesmas deformações que deveriam conter. O desvio deixa de ser exceção e passa a ser absorvido como parte do funcionamento. Nada parece desmoronar de imediato. A aparência de normalidade permanece. Mas há uma erosão lenta, quase imperceptível, corroendo o que sustenta a confiança.

O mais grave não é a existência da mentira, mas sua aceitação como elemento inevitável. Quando o cidadão deixa de estranhar o que é indigno, algo essencial se perde. Não é apenas a confiança nas instituições que se enfraquece. É o próprio vínculo entre o indivíduo e o sentido de justiça.

Ainda assim, há sempre um ponto de reversão possível. Ele não nasce do discurso, mas da consciência. Surge quando as pessoas voltam a reconhecer a diferença entre aparência e verdade. Quando deixam de aceitar como natural aquilo que, no fundo, sabem que não é.

Porque nenhuma mentira se sustenta sozinha. Ela depende da tolerância dos que a escutam. E é no instante em que essa tolerância se rompe que a verdade, mesmo silenciosa, começa novamente a existir.

Gera Teixeira é empresário ítalo-brasileiro com atuação nos setores de construção civil e engenharia de telecomunicações. Graduado em Marketing, com formação executiva pela Fundação Dom Cabral e curso em Inovação pela Wharton School (EUA). Atualmente cursa Pós-graduação em Psicanálise e Contemporaneidade pela PUC. Atuou como jornalista colaborador em veículos de grande circulação no Ceará. Integrou o Comites Italiano Nordeste, órgão representativo vinculado ao Ministério das Relações Exteriores da Itália. Tem participação ativa no associativismo empresarial e sindical.

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