A escuta que quase não existe; Por Gera Teixeira

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Há uma forma de presença que anda escassa. Não é ausência física, nem descaso declarado. É algo mais sutil: a incapacidade de ouvir o outro sem já estar, por dentro, formulando a próxima fala.

As conversas acontecem, mas muitas vezes são apenas sobreposições de vozes, cada uma esperando sua vez de entrar. Enquanto um fala, o outro se prepara. Não há pausa real, não há abandono provisório de si. Há pressa, e a pressa tem um custo que demora a aparecer.

Escutar de verdade exige algo que anda em falta: atenção sustentada. E exige também uma certa humildade, a de suspender o próprio pensamento por alguns instantes para acolher o do outro. Não completar a frase. Não redirecionar para si. Apenas permanecer com o que está sendo dito, ainda que seja difícil, ainda que seja incompleto.

As redes sociais aprofundaram essa lógica. Todos falam, poucos escutam. A validação vem em forma de curtidas, não de compreensão. O diálogo cede lugar à performance, e a performance não precisa de audiência atenta, precisa de audiência reativa.

O resultado aparece nos consultórios, nas relações, no cansaço difuso que muita gente carrega sem saber bem nomear. Não é solidão no sentido convencional. É algo mais preciso: a sensação de não ter sido alcançado. De ter falado e não ter sido ouvido de fato.

Muitos não buscam conselho. Não buscam solução. Buscam simplesmente uma presença que aguente ficar com o que foi dito, sem apressar a conclusão, sem disputar o sofrimento.

A escuta tem um efeito que se aproxima do terapêutico, mas não depende de consultório. Quando alguém se sente verdadeiramente ouvido, algo se reorganiza por dentro. As ideias encontram forma, os sentimentos ganham contorno. Não é a resposta que faz isso. É a qualidade da presença.

Talvez seja um dos gestos mais simples e mais esquecidos: estar com o outro sem a necessidade de se colocar à frente. Sem transformar a escuta em trampolim para a própria fala.

Num tempo em que todos querem falar, quem escuta se torna raro.
E, sem alarde, profundamente necessário.

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