A ansiedade que se disfarça de responsabilidade; Por Gera Teixeira

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Como um incômodo silencioso pode virar prisão, e como é possível retomar o comando da própria vida
Por Gera Teixeira

A ansiedade nem sempre chega fazendo barulho. Às vezes entra discreta, vestida de zelo, de compromisso, de responsabilidade. Parece coisa de gente séria.

Começa com um aperto no peito ao abrir o celular. Uma preocupação que insiste depois que a luz se apaga. A sensação de que ainda falta alguma coisa, mesmo quando o dia já deu tudo que tinha.

O homem que acorda cedo, responde mensagens tarde da noite e tenta equilibrar trabalho, família e expectativas raramente percebe o momento exato em que a ansiedade começa a decidir por ele. Ele acha que está apenas sendo forte. Que é fase. Que quem tem responsabilidade precisa aguentar.

Mas o corpo começa a falar. O sono fica leve. O pescoço endurece. O coração acelera sem aviso. A cabeça repete cenários, conversas, riscos que talvez nunca se cumpram. O descanso vira mais uma coisa que não funciona direito.

Aos poucos, aquilo que parecia cuidado vira confinamento. A pessoa está em casa, mas não está inteira. Ouve sem escutar. Sorri com esforço. Decide mal porque está cansada demais.

Muitos só procuram ajuda quando o corpo interrompe o que estava sendo sustentado pela força. Vem uma crise, um choro sem razão aparente, um esgotamento que não permite mais fingir. Pedir ajuda, nesse ponto, é um gesto de lucidez, não de fraqueza.

Quando o nome aparece – ansiedade, estresse crônico, burnout – vem junto certo alívio. Não era falta de caráter. Não era preguiça. Era um sistema inteiro funcionando em modo de alarme permanente.

O cuidado começa por decisões pequenas. Terapia para entender os gatilhos. Sono tratado como prioridade, não como sobra. Aprender a dizer não sem transformar isso em dívida. Desligar o trabalho em algum horário. Voltar a estar presente com quem se ama, não só fisicamente presente.

A ansiedade talvez nunca desapareça por completo. Em momentos de pressão, ela pode voltar a se instalar. A diferença está em reconhecê-la cedo, ouvir sem obedecer, separar o perigo real do medo que a cabeça fabrica sozinha.

Não se trata de derrotar nada. Apenas de parar de ceder o próprio lugar.

Gera Teixeira é empresário ítalo-brasileiro com atuação nos setores de construção civil e engenharia de telecomunicações. Graduado em Marketing, com formação executiva pela Fundação Dom Cabral e curso em Inovação pela Wharton School (EUA). Atualmente cursa Pós-graduação em Psicanálise e Contemporaneidade pela PUC. Atuou como jornalista colaborador em veículos de grande circulação no Ceará. Integrou o Comites Italiano Nordeste, órgão representativo vinculado ao Ministério das Relações Exteriores da Itália. Tem participação ativa no associativismo empresarial e sindical.

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