Europa entre o medo e a radicalização: o continente revive sombras do pré-Segunda Guerra? Por Aldairton Carvalho

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A Europa atravessa um dos períodos mais delicados desde o fim da Guerra Fria. O avanço de movimentos nacionalistas, o endurecimento das políticas migratórias, o crescimento da militarização e o retorno de símbolos associados ao extremismo levantam uma pergunta inquietante: o continente estaria revivendo elementos do cenário político que antecedeu a Segunda Guerra Mundial?

Embora a história nunca se repita de maneira idêntica, muitos dos componentes que marcaram a Europa das décadas de 1920 e 1930 voltaram ao debate público contemporâneo. A diferença é que, agora, esses fenômenos surgem em um mundo hiperconectado, digitalizado e submetido a novas pressões geopolíticas, econômicas e culturais.

Nos últimos anos, a imigração tornou-se o principal eixo político europeu. O aumento da entrada de refugiados oriundos do Oriente Médio, África e Ásia, somado à crise econômica, à inflação energética e à percepção de perda de identidade cultural, alimentou partidos nacionalistas em praticamente todo o continente.

No Reino Unido, manifestações recentes contra a imigração revelam um ambiente social cada vez mais tensionado. O Brexit, originalmente apresentado como uma recuperação da soberania britânica, transformou-se também em símbolo de resistência ao multiculturalismo e às políticas migratórias abertas. Em diversos protestos, grupos nacionalistas passaram a associar imigração ao aumento da criminalidade, à pressão sobre serviços públicos e à insegurança cultural.

Na Suíça, tradicionalmente conhecida pela neutralidade e estabilidade, propostas para limitar a imigração ganharam força política. O debate sobre estabelecer barreiras quando a população atingir 10 milhões de habitantes demonstra que até sociedades historicamente moderadas começam a discutir mecanismos de contenção populacional. O argumento central é a preservação da segurança, da infraestrutura e da identidade nacional. Recentemente em passagem por Genebra, testemunhei o furto de uma mala na porta do aeroporto, motivando uma multidão de turistas à correr atrás de recuperar o bem, aos gritos de “pega ladrao”.

Esse fenômeno não é isolado. Em países como França, Alemanha, Itália, Holanda, Hungria e Áustria, partidos nacionalistas deixaram de ocupar posições marginais para se tornarem protagonistas eleitorais. O discurso mudou. O que antes era tratado como extremismo passou a ser apresentado como “proteção nacional”, “defesa cultural” ou “preservação civilizacional”.

O problema é que o medo coletivo costuma produzir efeitos políticos profundos. Foi exatamente isso que ocorreu no período entre guerras. Após a Primeira Guerra Mundial, a Alemanha enfrentou crise econômica, desemprego, humilhação nacional, inflação e insegurança social. Nesse ambiente, líderes autoritários encontraram espaço para crescer oferecendo soluções simples para problemas complexos.

Hoje, ainda que em contexto diferente, observa-se novamente uma combinação perigosa: insegurança econômica, polarização ideológica, crise de confiança nas instituições e fortalecimento de discursos identitários radicais.

A guerra entre Rússia e Ucrânia intensificou esse processo. O conflito recolocou a lógica militar no centro da política europeia. Países que passaram décadas reduzindo investimentos em defesa iniciaram programas bilionários de rearmamento. A Alemanha, por exemplo, promoveu a maior transformação militar de sua política externa desde 1945, ampliando gastos militares e modernizando suas forças armadas.

A justificativa oficial é a necessidade de proteção diante da ameaça russa. Contudo, o aumento acelerado da militarização produz consequências sociais e psicológicas importantes. O medo externo fortalece o nacionalismo interno. A sensação de ameaça permanente cria terreno fértil para governos mais rígidos, vigilância ampliada e discursos de defesa nacional cada vez mais agressivos.

Além disso, a indústria armamentista voltou a ocupar posição estratégica na economia europeia. Empresas de defesa expandem produção, governos assinam novos contratos militares e a OTAN retoma protagonismo político. Em muitos países, a juventude europeia, que cresceu sob a promessa de uma Europa pacificada, volta a conviver com discursos sobre guerra, recrutamento, proteção territorial e inimigos externos.

Outro sinal preocupante é o retorno de símbolos extremistas. Em diferentes manifestações pelo continente, imagens ligadas ao nazismo e à supremacia étnica voltaram a aparecer. O uso de suásticas, usadas por pessoas em “cordões cobertos por casacos” ainda que minoritáriamente, possui enorme peso simbólico. Isso demonstra que antigas correntes radicais, antes reprimidas socialmente após 1945, encontram novamente espaços de circulação, principalmente nas redes sociais.

Entretanto, existem diferenças fundamentais entre o cenário atual e o pré-Segunda Guerra Mundial. A Europa contemporânea possui instituições democráticas mais consolidadas, integração econômica profunda e organismos multilaterais capazes de reduzir conflitos internos. A União Europeia, apesar das crises, ainda funciona como mecanismo de contenção política entre os países do continente.

Além disso, o trauma histórico da Segunda Guerra continua presente na memória coletiva europeia. Isso impede, ao menos por enquanto, que discursos extremistas avancem sem resistência institucional e social.

Mas o alerta permanece legítimo. A história mostra que períodos de medo, crise econômica e instabilidade internacional frequentemente produzem radicalização política. Quando imigração, insegurança, nacionalismo e militarização se combinam, cria-se um ambiente emocional propício ao surgimento de movimentos autoritários.

O grande desafio europeu será encontrar equilíbrio entre segurança e liberdade, soberania nacional e cooperação internacional, controle migratório e direitos humanos. Ignorar as preocupações da população tende a fortalecer ainda mais os extremos. Por outro lado, transformar medo em política permanente pode empurrar o continente para um ciclo perigoso de divisão e hostilidade.

A Europa talvez não esteja repetindo exatamente os anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial. Mas certamente vive um período que resgata fantasmas históricos que muitos acreditavam superados. O nacionalismo cresce, a militarização avança, as fronteiras endurecem e a sensação de ameaça se espalha.

E a história demonstra que, quando o medo passa a governar sociedades inteiras, o futuro deixa de ser previsível.

Aldairton Carvalho é advogado, pós graduado em Ciência Política, mestrando em Ciência Política pela Universidade de Lisboa, presidente do IBGOV- Instituto Brasileiro de Governança e CEO da Infinity Tokens tecnologia.

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