
A política é também uma disputa de narrativas. E, no Ceará, uma das palavras mais fortes desse embate recente — “traidor” — começa a trocar de endereço conforme o jogo político se reorganiza para 2026. Durante meses a fioi, a oposição liderada por Ciro Gomes trabalhou com a convicção de que o então ministro da Educação, Camilo Santana, acabaria assumindo a candidatura ao Governo do Ceará no lugar de Elmano de Freitas. Com essa configuração, trataou-se de pregar em Camilo a pexa de traidor.
No entorno cirista, nomes como Roberto Cláudio e Capitão Wagner e, principalmente, o próprio Ciro sustentavam a leitura de que Camilo, diante da força política acumulada e da centralidade que ocupa no grupo governista, pisaria no acelerador no momento decisivo e substituiria Elmano na disputa estadual.
A tese ganhou força nos bastidores a partir da ideia de que Camilo agiria como “coronel” político capaz de retirar o próprio governador da corrida eleitoral para reassumir diretamente o comando do projeto. Pelas condições objetivas do jogo (um governo bem avaliado, máquina consolidada, direito naturaal à reeleição e apoio presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva), a hipótese parecia, para muitos, pouco convencional. Ainda assim, virou quase uma certeza em parte do mercado político cearense.
O problema é que os fatos começaram a desmontar essa narrativa.
A recente oficialização da candidatura de Elmano pelo PT empurrou essa possibilidade para fora da ordem do dia. A fumaça política que alimentava a tese começou a dissipar-se. E é exatamente nesse momento que a palavra “traidor” retorna ao centro da disputa, mas agora direcionada contra Ciro Gomes.
Camilo passou a afirmar publicamente que o rompimento de Ciro com o grupo governista ocorreu porque o ex-ministro teria rejeitado a candidatura de Izolda Cela à reeleição em 2022 para impor o nome de Roberto Cláudio. Logo Izolda, mulher sobralense e uma âncora da política pública de mais sucesso no Ceará: a Educação.
Na nova narrativa construída pelo grupo governista, o traidor deixa de ser Camilo e passa a ser Ciro por ter vetado a candidatura de Izolda ao Governo e 2022 pelo partido do qual todos faziam parte. Ao afirmar que Ciro “traiu uma mulher” e agiu por “capricho e prepotência”, Camilo busca inverter o eixo moral da crise política de 2022 e reocupar um terreno simbólico importante perante a opinião pública.
Mais do que revisitar o passado, essa disputa tem endereço claro: 2026.
No fundo, os dois grupos tentam consolidar versões definitivas sobre quem rompeu primeiro, quem abandonou alianças históricas e quem carregaria a responsabilidade pela fragmentação do bloco político que governou o Ceará por quase duas décadas. Essa batalha narrativa importa porque campanhas eleitorais não são construídas apenas sobre obras, números ou alianças. Elas também dependem da capacidade de cada lado estabelecer uma interpretação dominante dos acontecimentos.
E, no Ceará, a guerra pela memória política de 2022 já começou.






