
Nur der verdient sich Freiheit wie das Leben, / Der täglich sie erobern muß.
“Só merece a liberdade e a vida quem precisa conquistá-las todos os dias.” — Johann Wolfgang von Goethe, Fausto II.
Goethe escreveu que só merece a liberdade e a vida quem precisa conquistá-las todos os dias. Durante muito tempo, li essa frase como filosofia. Hoje a leio como espelho.
Percebi isso numa tarde qualquer. Ia dizer uma coisa, das comuns, e me ouvi parar no meio, recuar e escolher outra frase, mais lisa, que não incomodasse ninguém. Não foi um drama. Foi um gesto pequeno, automático, desses que a gente faz mil vezes sem reparar. Só que dessa vez eu reparei. E o que vi foi que havia tempo eu não falava direito. Eu negociava comigo antes de abrir a boca, media cada palavra para que coubesse no espaço que tinha permissão de ocupar.
Existem prisões de muro e grade. Essas a gente vê, e pelo menos sabe onde está e contra o que luta. As outras são mais difíceis, porque não fazem barulho ao se fechar. Vão entrando devagar, com jeito de boa convivência, de prudência, de paz em casa. Um dia você continua andando, falando, rindo na hora certa, e parece o mesmo de sempre. Mas já não diz o que pensa. Já não deixa o rosto mostrar o que sente.
As correntes que me prendiam não eram de ferro. Eram feitas de medo de desagradar, de um cansaço velho de discutir, daquela conta silenciosa que a gente faz entre ter razão e ter sossego, e quase sempre escolhe o sossego. Algumas dessas correntes foram forjadas por quem dizia me querer bem. Outras eu mesmo apertei, no dia em que comecei a achar que a paz valia mais do que a verdade, e que ficar calado era mais sábio do que ser inteiro.
Não falo da liberdade de ferir, de impor, de passar por cima dos outros. Falo de uma liberdade mais simples, e por isso mais difícil: a de continuar sendo quem se é, mesmo quando isso desarruma a mesa. Pensar sem pedir licença. Sentir sem precisar justificar. Dizer o que se tem a dizer sem ensaiar antes a versão inofensiva.
Quem controla a consciência do outro quase nunca se acha carcereiro. Acha que protege, que corrige, que orienta. No fundo, acredita que faz tudo por amor. E talvez faça mesmo. Mas há um afeto que vem com conta para pagar, e o que ele cobra a gente paga aos poucos, em pedaços de si, sem nem perceber que está pagando.
Hoje sei que essas correntes não se rompem de uma vez. Não houve manhã de libertação, nenhum gesto heroico. Houve uma frase dita por inteiro, certo dia, do jeito que tinha nascido. E o mundo não desabou. Depois veio outra. A corrente não arrebenta; ela vai ficando frouxa cada vez que a gente teima em ser fiel ao que é.
Ainda ontem me peguei de novo arrumando a frase antes de dizer. Amanhã talvez deixe escapar inteira. Talvez não. Mas começo a entender o que Goethe sabia e eu não queria saber: isso não se ganha de uma vez por todas. Tem que ser reconquistado toda manhã. E a primeira manhã é sempre dentro da gente.







