“Nada há encoberto que não venha a ser revelado, nem oculto que não venha a ser conhecido.”
Lucas 12:2
A condenação do ex-vereador e médico cassado Jairo Souza Santos Júnior, conhecido como Dr. Jairinho, pela morte de Henry Borel não encerra apenas um dos crimes mais chocantes da história recente do Brasil. Ela também lança luz sobre um aspecto perturbador do caso: os sinais estavam lá.
As declarações de ex-companheiras, divulgadas após a condenação, apontam para denúncias e comportamentos que, segundo elas, já revelavam traços de violência muito antes da morte da criança. Se tais relatos forem verdadeiros, reforçam uma constatação incômoda: monstros raramente surgem de repente. Eles costumam deixar rastros.
Durante anos, Jairinho desfrutou de prestígio político e trânsito nos círculos de poder da capital fluminense. Apresentava-se como homem respeitável, ocupava cargo público e cultivava uma imagem socialmente aceitável. Mas a aparência, tantas vezes, é apenas uma cortina.
Sempre defendi uma ideia simples. Quando o Estado falha em identificar, conter e punir adequadamente indivíduos violentos, a sociedade inteira assume o risco. Não se trata de vingança. Trata-se de proteção.
Henry Borel era uma criança indefesa. Não possuía meios para reagir, fugir ou denunciar. Dependia dos adultos que o cercavam. Matar uma criança não é apenas um crime. É a manifestação do mal em sua forma mais pura. Foi essa negação da inocência que marcou algumas das páginas mais sombrias do nazismo e continua a assombrar qualquer sociedade que falhe em proteger seus pequenos.
Nenhuma sentença consegue apagar o sofrimento experimentado por uma criança submetida ao medo e à dor. A prisão é a resposta que o ordenamento jurídico brasileiro oferece. Mas a sensação de insuficiência permanece.
O sistema penal brasileiro possui uma contradição difícil de ignorar. Mantém encarcerados durante décadas indivíduos cuja recuperação se mostra improvável, enquanto transfere integralmente ao contribuinte o custo dessa permanência. A sociedade paga pela manutenção daqueles que escolheram destruir vidas inocentes.
Em crimes excepcionalmente cruéis, praticados contra crianças e demonstrados por provas robustas e irrefutáveis, continuo a entender que a Pena Capital deveria integrar o debate público. Muitos rejeitam essa possibilidade. Outros a enxergam como a única resposta proporcional diante de determinadas formas de barbárie.
Já é tempo de silenciar os monstros — definitivamente.
Walter Pinto Filho
Promotor de Justiça em Fortaleza
Autor dos livros CINEMA – A Lâmina que Corta e O Caso Cesare Battisti – a confissão do terrorista.www.filmesparasempre.com.br






