O olhar da Medusa; Por Gera Teixeira

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Há histórias que atravessam os séculos porque falam menos dos deuses e mais de nós mesmos. A de Medusa é uma delas.

Durante muito tempo nos ensinaram que ela era um monstro. Uma criatura horrenda, de cabelos feitos de serpentes, cujo olhar transformava homens em pedra. Crescemos ouvindo a glória de Perseu e quase nunca a dor de Medusa.

Mas a psique costuma esconder suas verdades mais fundas justamente onde a história parece pura fantasia.

Jung dizia que os mitos são a linguagem da alma. Não nasceram para registrar fatos, e sim para dar nome ao que se move dentro de nós, longe da luz.

Quando observo Medusa por esse ângulo, não vejo apenas uma mulher transformada em monstro. Vejo uma ferida que aprendeu a se defender. Alguém que sofreu uma violência tão funda que desistiu de confiar no mundo. Talvez seja isso que a petrificação signifique: não a maldição que vem de fora, mas o coração que endurece por dentro para não sentir outra vez.

Quem nunca esbarrou em alguém assim? Uma pessoa em quem a dor virou frio, e o frio virou distância, e de repente o ar parece travar quando ela entra na sala. Há quem endureça depois de certas perdas, e quem passe a vida inteira erguendo muros cada vez mais altos, até que ninguém mais consiga chegar perto.

As serpentes, então, talvez sejam isso: o pensamento que não cala, o medo que não dorme, a lembrança que se enrosca em outra e fica de vigília, noite adentro. A psique fala por imagem. Quando a razão emperra, é o símbolo que aparece no lugar dela.

E então percebemos que Medusa não mora apenas nos livros antigos. Ela habita os cantos esquecidos de cada um de nós. Existe uma Medusa em quem foi traído e nunca mais amou do mesmo modo. Existe também em quem foi humilhado e começou a farejar ameaça em cada esquina, em quem pegou a própria fragilidade e a vestiu como couraça.

O curioso é que Perseu não a vence encarando-a de frente. Usa o escudo como espelho, e enfrenta o reflexo, não o rosto.

Jung talvez visse aí outra coisa. Os monstros de dentro não se enfrentam no impulso. Olhar de frente para certas feridas é o caminho mais curto para virar pedra. Antes do confronto vem a consciência, esse espelho meio embaçado que vamos limpando devagar. Só assim conseguimos encarar o que assusta sem sermos engolidos por ele.

Talvez por isso a história siga viva. Não fala apenas de uma mulher amaldiçoada. Fala das partes de nós que foram feridas, caladas, empurradas para o escuro, transformadas em algo que jamais quiseram ser.

E fala da chance de olhar para esses cantos com alguma coragem. Não para destruí-los, nem para fingir que não existem, mas para reconhecer que até o monstro teve uma vida antes da monstruosidade. Quase sempre, uma vida de dor.

Olha… talvez seja por aí que mora a parte difícil.

O olhar de Medusa nunca foi o verdadeiro risco. O risco é a vida inteira passar sem que baixemos os olhos para a nossa própria sombra.

Gera Teixeira é empresário ítalo-brasileiro com atuação nos setores de construção civil e engenharia de telecomunicações. Graduado em Marketing, com formação executiva pela Fundação Dom Cabral e curso em Inovação pela Wharton School (EUA). Atualmente cursa Pós-graduação em Psicanálise e Contemporaneidade pela PUC. Atuou como jornalista colaborador em veículos de grande circulação no Ceará. Integrou o Comites Italiano Nordeste, órgão representativo vinculado ao Ministério das Relações Exteriores da Itália. Tem participação ativa no associativismo empresarial e sindical.

 

 

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