Cearense Luiz Carlos Barreto, o “Barretão”, morre aos 98 anos e deixa um legado definitivo para o cinema brasileiro

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Foto: Reprodução

O cinema brasileiro perdeu um de seus maiores construtores. Morreu nesta quarta-feira, aos 98 anos, o produtor, fotógrafo, roteirista e articulador cultural Luiz Carlos Barreto, o “Barretão”, responsável por transformar o cinema nacional em uma indústria capaz de dialogar com o grande público sem abrir mão da qualidade artística.

Nascido em Sobral (CE), em 20 de maio de 1928, Barreto foi muito mais do que um produtor de sucessos. Tornou-se um dos arquitetos do Cinema Novo, participou da formulação de políticas públicas para o audiovisual e ajudou a consolidar uma geração que projetou o Brasil nos principais festivais internacionais. Ao longo de mais de seis décadas de carreira, produziu ou coproduziu mais de uma centena de filmes, muitos deles considerados clássicos da cinematografia brasileira.

Antes do cinema, construiu carreira no jornalismo. Foi repórter fotográfico da histórica revista O Cruzeiro, cobrindo acontecimentos no Brasil e no exterior. Viveu em Paris, onde estudou Letras na Sorbonne, experiência que ampliou sua formação intelectual e seu olhar sobre a cultura. Em 1947 fixou residência no Rio de Janeiro, cidade onde consolidaria sua trajetória profissional.

O encontro definitivo com o cinema ocorreu em 1961, durante as filmagens de Barravento, primeiro longa de Glauber Rocha. Pouco depois escreveu, ao lado de Roberto Farias, o roteiro de O Assalto ao Trem Pagador (1962), obra que marcou sua entrada definitiva na produção cinematográfica.

Como diretor de fotografia assinou dois marcos absolutos do cinema nacional: Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos — premiado pela crítica no Festival de Cannes — e Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha, cuja fotografia ajudou a redefinir a linguagem visual do Cinema Novo.

Em meados dos anos 1960 fundou a Difilm, distribuidora criada pelos principais cineastas do Cinema Novo para garantir espaço ao cinema brasileiro. Pouco depois, ao lado da esposa Lucy Barreto, criou a L.C. Barreto, produtora que se tornaria uma das mais importantes da história do audiovisual nacional.

Sob sua liderança nasceram obras fundamentais como Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), de Bruno Barreto — durante décadas o filme de maior público do cinema brasileiro, com mais de dez milhões de espectadores —, Bye Bye Brasil (1979), Memórias do Cárcere (1984), O Quatrilho (1995), O Que É Isso, Companheiro? (1997), Bossa Nova (2000), O Caminho das Nuvens (2003) e dezenas de outros títulos que ajudaram a formar diferentes gerações de espectadores.

Seu trabalho também levou o Brasil duas vezes consecutivas à disputa do Oscar de Melhor Filme Internacional, com O Quatrilho, dirigido por Fábio Barreto, e O Que É Isso, Companheiro?, dirigido por Bruno Barreto. Era um raro caso em que uma família inteira ajudou a escrever capítulos decisivos da história do cinema brasileiro.

Barretão e Lucy Barreto formaram uma das parcerias mais longevas e influentes da cultura nacional. Casados por mais de sete décadas, construíram juntos uma produtora que atravessou diferentes fases do cinema brasileiro e revelou talentos dentro e fora da família. Além dos filhos Bruno, Fábio — morto em 2019 — e Paula Barreto, produtora que deu continuidade ao trabalho da empresa, o casal transformou a L.C. Barreto em referência internacional de produção audiovisual.

Além da atuação artística, Luiz Carlos Barreto exerceu forte influência institucional. Participou dos principais debates sobre financiamento, distribuição e fortalecimento da indústria audiovisual brasileira, defendendo permanentemente a construção de um cinema economicamente sustentável. Também integrou iniciativas voltadas à televisão por assinatura, sendo um dos sócios do grupo responsável pela criação e administração do Canal Brasil, espaço dedicado exclusivamente ao audiovisual nacional.

Amigo de intelectuais e artistas de sua geração, entre eles o poeta Mário Faustino, Barreto sempre manteve intensa participação na vida pública e cultural brasileira. Nunca separou cinema e política, entendendo o audiovisual como instrumento de identidade nacional e desenvolvimento cultural.

Em 2024 recebeu do Governo do Ceará a Medalha da Abolição, a mais alta honraria do Estado, reconhecimento ao cearense que ajudou a colocar o cinema brasileiro entre os mais respeitados do mundo.

Com a morte de Luiz Carlos Barreto desaparece um dos últimos protagonistas da geração fundadora do Cinema Novo. Seu legado permanece vivo em filmes que marcaram a história do país, em uma produtora que se tornou patrimônio do audiovisual brasileiro e em uma família cuja trajetória se confunde com a própria evolução do cinema nacional.

Poucos produtores foram tão decisivos para transformar grandes filmes em clássicos. Barretão foi um deles. Sua obra permanece como testemunho de que o cinema brasileiro pode ser, ao mesmo tempo, popular, autoral e universal.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Selo do TSE divide institutos; AtlasIntel apoia iniciativa e acende debate sobre precisão das pesquisas

Aval de Lula consolida Cid Gomes como candidato ao Senado e aproxima definição da chapa governista no Ceará

O Duplo Twist Carpado de Mauro Filho

Obtuário: Cid Carvalho, uma voz que atravessou gerações da comunicação e da política cearense

A chapa dos sonhos do governismo no Ceará

Jogando na defesa e no ataque, Romeu Aldigueri se torna referência no enfrentamento com a oposição

Ceará como um dos elos da nova cadeia automotiva mundial e a bad trip da nossa política

O silêncio de Cid Gomes não é dúvida. É método.

Carta a Trump: Mais um grave erro político de Flávio Bolsonaro

Camilo e Luizianne reabrem canal político após anos de distanciamento

A aposta do Ibmec no capital humano cearense

Fortaleza domina Enem 2025: capital ocupa as 3 primeiras posições do BR e tem 4 escolas entre as 10 melhores

MAIS LIDAS DO DIA

Movimentos da Federação União Progressista abrem dúvidas na composição das chapas de Governo e oposição no Ceará

A tentação totalitária e a tomada do poder do Estado; Por Paulo Elpídio

Governo regulamenta trabalho no comércio durante feriados

O Cinturão da Energia como prioridade para o Ceará; Por Mac Trigueiro

PF conclui PAD e recomenda demissão de Eduardo Bolsonaro por abandono de cargo

Tarifa adicional dos EUA sobre produtos brasileiros entra em vigor

Trump anuncia plano para impor tarifa de até 200% sobre medicamentos genéricos importados

Cearense Luiz Carlos Barreto, o “Barretão”, morre aos 98 anos e deixa um legado definitivo para o cinema brasileiro

PP caminha para neutralidade e dificulta aliança de Flávio Bolsonaro