A cultura nordestina traz na música a expressão mais pura e visceral de sua identidade. Trata-se de uma manifestação plural e bendita, tecida pelas mãos e fôlegos de europeus, indígenas e africanos que, ao se encontrarem neste solo, fundiram suas heranças às tradições do folclore, parindo gêneros que hoje habitam o coração do Brasil.
Essa riqueza transborda em todas as vertentes. Na música erudita, a sofisticação ganha alma nos compassos de Alberto Nepomuceno, Paurílio Barroso, Liduíno Pitombeira e Eleazar de Carvalho. Já na música popular, o Nordeste dita o ritmo da vida em rimas e passos de coco, xaxado, martelo agalopado, samba de roda, baião, xote e frevo.
O Nordeste também é vanguarda e revolução. Nos anos 1960, a Bahia pariu o canibalismo poético do Tropicalismo, sob as mentes brilhantes de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé e Torquato Neto; duas décadas depois, o mesmo solo baiano explodiria na energia contagiante da Axé Music, eternizada por Daniela Mercury, Luiz Caldas, Timbalada e Olodum. O lirismo rasgado do brega ganhou forma e sotaques plurais: na Bahia, com a elegância de Waldick Soriano; em Pernambuco, com a boemia inesquecível de Reginaldo Rossi; e na Paraíba, nas vozes confessionais de Bartô Galeno e Genival Santos. Nos anos 1990, a lama dos mangues pernambucanos ganhou antenas parabólicas com o Mangue Beat de Chico Science e Nação Zumbi. Enquanto isso, ainda na década de 1970, o Ceará se transformava em poesia pura com o Movimento Massafeira idealizado por Ednardo e Augusto Pontes , revelando ao mundo as joias raras de Fagner, Belchior e Amelinha.
Mas foi em 1946 que o destino da música brasileira mudou para sempre. Inspirado pela cadência do sanfoneiro sulista Pedro Raimundo, um jovem chamado Luiz Gonzaga reuniu as relíquias dispersas do folclore e, com genialidade intuitiva, harmonizou a sanfona, o triângulo, o zabumba e o pandeiro. Ao acrescentar o movimento curto, rápido e rasteiro do fole, o milagre estava feito: nascia o baião.
Ao lado de Humberto Teixeira, o “Doutor do Baião”, Gonzaga urbanizou o gênero e vestiu o Brasil de sertão. Juntos, cantaram a dor da terra seca, a saudade da imigração, a fé inabalável, os bichos, as árvores e os costumes. Não ficou nada por cantar; a vida nordestina inteira coube dentro daquele fole.
O baião tornou-se, ao lado do samba, uma das mais imponentes matrizes da MPB. Sofreu, é verdade, a injustiça grosseira daqueles que, cegos para a sua riqueza, o chamavam de “música de uma nota só” sem notar que seus acordes eram tão ricos que logo ecoariam em orquestras sinfônicas.
Ao lado de Jackson do Pandeiro, o “Rei do Ritmo” ele próprio influenciado pelo pioneirismo de Manezim Araújo, Gonzaga formou a dinastia mais bonita da nossa música. Esse movimento fértil floresceu em conjuntos lendários como o Trio Nordestino, Marinês e sua Gente, Os Três do Nordeste e as seculares bandas cabaçais. Fez brotar, também, uma constelação de compositores magistrais: Zé Dantas, João Silva, Dominguinhos, Zé Marcolino, Antônio Barros, Zé Queirós, Onildo Almeida, Zé Clementino, Rosil Cavalcante, Sivuca, Anastácia e a poesia viva de Patativa do Assaré.
Esse movimento amadureceu, ocupou as capitais, iluminou o Nordeste, deu dignidade ao seu povo e, com a força de sua beleza, calou os incrédulos. No momento de passar o bastão, o baião diferentemente de outros movimentos efêmeros Brasil afora seguiu uma caminhada serena, protegida pelo amor de seu povo. A sucessão foi um abraço de gerações.
Hoje, a nossa identidade transita livre e majestosa na voz e nos instrumentos de artistas maravilhosos. O legado pulsa vivo em Maciel Melo, Jorge de Altinho, Luís Fidelis, Flávio Leandro, Nando Cordel, Petrúcio Amorim, Rita de Cássia, Waldonys, Cesinha do Acordeon, Chico Justino, Dorgival Dantas, Sirano, Adelson Viana, Amazan, Luizinho Calixto, Flávio José, Lucy Alves, João Gomes, Elba Ramalho, Mastruz com Leite, Zé Vaqueiro, Alcimar Monteiro, Eliane, Santana o Cantador, Targino Gondim e Walquíria Santos.
A poeira assentou, mas o som do fole continua ecoando eterno. Baionistas, nós matamos um leão a cada dia, continuamos e sempre estaremos muito bem na fita!
Helder Moura é Cirurgião Dentista, especialista em saúde pública, prótese dentária e ortodontia e ortopedia dos maxilares. Membro Fundador da Academia de artes e letras de Cajazeiras.







