
Um ensaio sobre o manifesto “We Must Act Now”, o paradoxo da abundância e o órgão que faltava à cidade inteligente: o parque tecnológico
Por Machidovel Trigueiro Filho
O dia em que os céticos assinaram o alarme
Há manifestos que valem pelo que dizem. Este vale, sobretudo, por quem o assina.
Em 13 de julho de 2026, o Stanford Digital Economy Lab publicou o documento mais curto e mais pesado da história recente do pensamento econômico: quatro frases, menos de cem palavras, sob o título “We Must Act Now” (“Precisamos Agir Agora”). Lançado com mais de duzentas assinaturas, entre elas dezesseis laureados com o Nobel, o texto se aproximou de quatrocentos nomes em poucos dias. E que nomes: Daron Acemoglu, Joseph Stiglitz, Paul Krugman, Ben Bernanke, Michael Spence, Simon Johnson, Philippe Aghion, Olivier Blanchard e Jason Furman, ao lado de pioneiros da técnica como Yoshua Bengio e Yann LeCun, de Eric Schmidt e Reid Hoffman, e de pesquisadores e executivos da OpenAI, da Anthropic e do Google. Quando a academia que estuda a máquina e os laboratórios que a constroem assinam o mesmo papel, o recado deixa de ser opinião: vira diagnóstico.
O conteúdo cabe num parágrafo. A inteligência artificial pode se tornar radicalmente mais poderosa nos próximos dez anos e provocar uma transformação econômica “maior do que a Revolução Industrial”, porém comprimida numa fração do tempo. Os riscos incluem o deslocamento de trabalhadores em larga escala; as oportunidades, ganhos históricos de produtividade e de padrão de vida. E o chamado central: construir, desde já, os incentivos, as salvaguardas e as instituições capazes de direcionar a IA para complementar o ser humano, e não para substituí-lo. Note o leitor o que o texto não pede: não pede pausa, não pede moratória, não flerta com o ludismo. Pede preparo, escolhas deliberadas e democráticas, engenharia institucional.
O detalhe que muda tudo está em duas assinaturas: Acemoglu e Johnson, Nobéis de 2024. Ambos passaram a última década desmontando, com dados e elegância, o alarmismo tecnológico; foram eles que deram aos governos o álibi intelectual do “calma, sempre foi assim”. Da máquina a vapor à eletricidade, da eletricidade ao computador pessoal, toda onda de automação terminou criando mais empregos do que destruiu, porque a sociedade teve gerações inteiras para digerir cada choque. Quando os autores do contra-argumento assinam o alarme, o álibi acaba. Erik Brynjolfsson, organizador do documento, falou ao The New York Times de uma “mudança notável na profissão” e não escondeu a metáfora que o move: um tsunami se formando diante de instituições que ainda discutem o formato do guarda-sol. Anton Korinek acrescentou a variável decisiva: as revoluções anteriores deram às sociedades décadas para adaptar leis, escolas e profissões; esta pode conceder apenas alguns anos. E os primeiros números já chegaram: o AI Index de Stanford registra queda de quase vinte por cento no emprego de desenvolvedores de software entre 22 e 25 anos desde o pico de 2024. A porta de entrada do trabalho cognitivo, aquela primeira vaga que ensinava o ofício, está estreitando primeiro.
O crepúsculo do dinheiro
É nesse cenário que a profecia de Elon Musk deixa de soar como excentricidade de bilionário. Em painel ao lado de Jensen Huang, no fórum de investimentos entre Estados Unidos e Arábia Saudita, Musk previu que a união entre a inteligência artificial avançada e a robótica humanoide (o seu projeto Optimus é o exemplo confesso) tornará o trabalho opcional em dez a vinte anos, algo como um hobby: quem quiser trabalhará como quem planta legumes no quintal podendo comprá-los na feira. E foi além: “em algum momento, a moeda se torna irrelevante”.
A frase é menos mística do que parece. O dinheiro sempre funcionou como um grande banco de dados da escassez: um registro de quem pode reivindicar o quê num mundo em que trabalho e bens são limitados. Se o custo marginal de produzir, construir, ensinar e cuidar despencar rumo ao zero, esse banco de dados perde boa parte do que tinha para registrar. Musk não fala em renda básica universal, que considera pouco; fala em “renda alta universal”, sustentada pela deflação da abundância, com inspiração declarada nos romances da série Cultura, de Iain M. Banks, nos quais o dinheiro simplesmente não existe. A ironia é digna de romance: o primeiro trilionário da história anunciando a aposentadoria do dinheiro. Convém ceticismo, e muito. Mas convém, igualmente, escutar o sinal por trás da hipérbole: quando o topo da pirâmide capitalista passa a discutir publicamente a dissolução do vínculo entre salário e sobrevivência, o tabu já caiu. O debate não é mais se, é como, quando e sob o comando de quem.
A frase esquecida: a escassez não morre, migra
Há, contudo, uma frase de Musk que passou despercebida e que considero a chave de tudo. Mesmo no seu cenário de abundância, ele admite que restarão restrições de energia elétrica e de massa. Tradução: a escassez não desaparece; muda de endereço. Sai do trabalho cognitivo, que a máquina tornará abundante, e se aloja no substrato físico que sustenta a máquina: energia, conectividade e dados, a tríade que venho sustentando, em livros e na cátedra, como objeto jurídico unificado do nosso tempo. A economia da inteligência artificial é, antes de qualquer algoritmo, uma economia de território: megawatts, cabos submarinos, terrenos, água, latência. Chamo esse chão de território computacional; à capacidade de governá-lo, soberania infraestrutural. Eis o ponto cego do debate global: discute-se o fim do emprego e o fim do dinheiro, mas pouco se pergunta quem governará o solo onde a nova ordem computacional pousa.
E não deixa de ser eloquente que pesquisadores dos próprios laboratórios tenham assinado o manifesto. É como se os construtores do motor admitissem, em conjunto, que um motor potente sem chassi social não produz progresso, produz acidente. A técnica pede, ela mesma, a moldura. A pergunta que resta é onde essa moldura será forjada.
Com o que vamos gastar: o inventário do que sobra
Respondo então às perguntas que todos evitam. O que vai sobrar? Sobra o que a máquina não replica. Com o que as pessoas vão gastar tempo, energia e recursos? Com o que é irredutivelmente humano. Quando a cognição barateia, encarece o tempo, a saúde, a presença, a experiência, a natureza, o sentido. A resposta à abundância não será o ócio passivo: será a elevação da condição humana, o reencontro da espécie com aquilo que a máquina, por mais brilhante que seja, não replica em essência, o afeto, a criatividade pura, o encantamento.
A economia da longevidade tende a se tornar o maior destino de gasto das próximas décadas: não a medicina que remenda corpos gastos pelo trabalho, mas a que otimiza mente e corpo para vidas mais longas, preventiva, preditiva, personalizada. Viver mais, e melhor, é o único luxo que não sai de moda. O turismo e a economia da experiência vêm logo atrás, pela velha lição de Baumol: serviços intensivos em gente ficam relativamente mais caros, e mais valiosos, à medida que tudo o mais se automatiza. Viajar deixará de ser o descanso anual para virar estilo de vida: intercâmbio cultural, gastronomia, artes, esporte, espiritualidade, natureza, a mesa posta com quem se ama. O consumo desloca do ter para o viver.
E aqui mora uma notícia que o debate dos países ricos ainda não percebeu: essa nova cesta de escassez favorece, com precisão geográfica, os lugares que têm sol, mar, vento, cultura e gente. Favorece o Nordeste brasileiro. O Ceará é a síntese quase didática da equação: vento e sol em abundância, isto é, energia; um dos maiores pontos de amarração de cabos submarinos do Atlântico Sul, em Fortaleza, isto é, conectividade; investimentos bilionários anunciados em centros de dados, isto é, dados; e litoral, cultura e hospitalidade, isto é, exatamente aquilo em que a humanidade pós-abundância vai querer gastar. Poucas geografias no planeta reúnem, no mesmo raio de quilômetros, os dois lados da transformação: o substrato que alimenta a máquina e o destino do gasto humano que ela liberará.
Da fábrica ao parque: o novo coração da cidade
Falta responder à pergunta urbana, e ela é decisiva. A fábrica desenhou a cidade industrial: bairros operários, chaminés, o apito que organizava o dia. A torre de escritórios desenhou a cidade do século XX: o distrito financeiro, o subúrbio dormitório, o congestionamento como ritual diário. Se o trabalho vira opção e a produção se automatiza, o que estruturará a cidade da era da inteligência artificial?
Minha resposta, amadurecida entre a cátedra e a gestão pública, é o parque tecnológico. Não o parque como o conhecemos, condomínio de galpões com isenção fiscal, ilha cercada de cidade por todos os lados, mas o parque como órgão vital, a ágora da nova civilização. Na cidade que vem, o parque tecnológico é menos um lugar aonde se vai trabalhar e mais um lugar aonde se vai cocriar: um ecossistema híbrido que mistura pesquisa, biotecnologia, laboratórios de arte e experiência, centros de longevidade e saúde preventiva, a escola em tempo integral do aprendizado contínuo e praças desenhadas para maximizar o encontro humano, com a inteligência artificial operando nos bastidores, regendo trânsito, energia, saneamento e agricultura urbana como quem rege uma orquestra invisível. O turista do futuro visitará o parque de uma região não apenas para ver como a inovação se faz, mas para experimentá-la: terapias de nova geração, simulações imersivas, festivais em que ciência e cultura se confundem. É ali que a cidade inteligente deixa de ser slogan e vira método: o laboratório onde o município aprende a governar os próprios dados, a auditar os próprios algoritmos, a transformar sensores em política pública. Em vez de subúrbios alienantes orbitando distritos de negócios vazios à noite, comunidades completas orbitando um núcleo de conhecimento, saúde e convívio.
Por isso insisto na imagem do coração, e ela não é apenas retórica. Um coração tem núcleo, tem camadas de proteção e tem artérias. Foi assim que concebemos o desenho: um núcleo denso de inovação, um anel de amortecimento que o articula com a vida da cidade e um eixo tecnológico que, como artéria, irriga os bairros com emprego, formação e serviço. E tem, sobretudo, sangue de retorno. Dei o nome de contrapartidas computacionais à lógica jurídica segundo a qual quem se apropria do território computacional deve remunerar a travessia de quem nele vive: o data center financia a requalificação do trabalhador que a própria tecnologia desloca; a energia que alimenta a máquina paga a escola que forma gente para o que a máquina não faz; o valor gerado pelo algoritmo retorna em praça, posto de saúde, bolsa de estudo. O coração não acumula o sangue: bombeia.
Onde a tese virou norma
Foi essa a arquitetura que desenhamos em Caucaia com o PARTEC, o Parque Tecnológico de Caucaia: lei própria de criação, polígono de 124,68 hectares delimitado por decreto, uma agência municipal para geri-lo (a CAUCTEC) e um fundo de tecnologia (o FMTec) para capturar valor e devolvê-lo em formação, saúde e cidade. Não como promessa de palanque, mas como norma posta, publicada e vigente. Uma cidade média do Nordeste respondendo, com instrumentos jurídicos concretos, à pergunta que os economistas de Stanford deixaram aberta: agir agora, sim, mas como, e onde? A minha resposta, submetida ao escrutínio de quem quiser examiná-la, é esta: na cidade, por lei, com fundo, em torno de um parque que bata como coração. Se cada município que receber um cabo, uma subestação ou um galpão de servidores replicar essa gramática, o Brasil terá feito algo raro no debate global: terá transformado a angústia do manifesto em método urbano.
O vento que sopra
O lobo da inteligência artificial está soprando, e desta vez sopra rápido. Mas a fábula nos ensinou o essencial: não se discute com o vento, constroem-se casas de tijolo. Os tijolos, aqui, são jurídicos e urbanos: lei, fundo, agência, parque. A argamassa é a decisão política de agir antes do impacto. Não sei se Musk acertará o calendário; o próprio Acemoglu, mesmo assinando o alerta, mantém dúvidas sobre a velocidade da revolução que anuncia. Mas política pública séria não se faz com certezas: faz-se com seguros contra futuros plausíveis. Se a transformação vier menor do que o anunciado, teremos construído cidades melhores, escolas melhores, parques que pulsam conhecimento. Se vier do tamanho que dezesseis Nobéis temem, teremos construído a arca, e ela terá endereço: os parques tecnológicos, templos renascentistas do século XXI, onde a espécie liberada do trabalho de subsistência se reencontrará com o cuidado, o conhecimento, a saúde e a viagem. Em oitenta e oito palavras, quase quatrocentos sábios pediram que o mundo agisse agora. Em Caucaia, com a modéstia de quem planta e a pressa de quem leu o manifesto, o futuro já escuta o próprio coração bater.
Machidovel Trigueiro Filho é professor titular de Direito Digital e Direito Econômico da Faculdade de Direito da UFC, secretário de Ciência, Inovação e Desenvolvimento Tecnológico de Caucaia (CE) e autor, entre outros, de “Depois dos Data Centers” e “Direito das Contrapartidas Computacionais”.






