2025: o ano do tri, quando o pódio é ocupado pela tragédia; Por Walter Pinto Filho

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Por Walter Pinto Filho

No futebol, o tri é motivo de orgulho. Na segurança pública, é o retrato de um fracasso coletivo. O Ceará passou a ostentar um título que ninguém deveria celebrar. Em 2025, Maranguape, Maracanaú e Caucaia colocaram o Estado entre os protagonistas de uma estatística vergonhosa: três cidades entre as dez mais violentas do Brasil. Um pódio que envergonha qualquer sociedade.

Há cerca de vinte anos, fui Promotor de Justiça em Maranguape. Conheci uma cidade muito diferente da que hoje ocupa o primeiro lugar nesse ranking. Havia criminalidade, como em qualquer município, mas não um ambiente dominado pelo medo. Ao ler o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 23 de julho de 2026, e constatar que Maranguape lidera hoje a violência nacional, percebe-se como uma cidade pode perder, em poucas décadas, a própria sensação de tranquilidade.

Maracanaú já apresentava outra realidade, embora muito distante do cenário atual. Ali enfrentei grupos de justiceiros que se arrogavam o direito de decidir quem viveria e quem morreria. Em um dos processos mais marcantes, um acusado foi condenado a mais de sessenta anos de prisão. Naquele tempo, o desafio era enfrentar grupos de extermínio. Hoje, a ameaça ganhou outra dimensão: organizações criminosas disputam territórios, impõem regras, expulsam moradores e desafiam diariamente a autoridade do Estado.

Caucaia completa esse retrato inquietante. Após reduzir seus índices em 2024, voltou a registrar alta da violência. Vale lembrar que, em 2020, foi destaque no ranking nacional, com 98,6 mortes violentas por 100 mil habitantes. Segundo a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS), em nota repercutida pela CNN Brasil, Maranguape, Maracanaú e Caucaia registraram redução dos indicadores de Crimes Violentos Letais Intencionais no primeiro semestre de 2026 — rezemos para que seja consolidada.

Enquanto a média nacional continuou em queda, o Nordeste permaneceu na contramão dessa tendência. Estados como São Paulo, Goiás e Santa Catarina registraram avanços importantes. Em sentido oposto, a Bahia colocou cinco cidades entre as dez mais violentas do Brasil, um retrato eloquente da gravidade do problema.

Em números absolutos de mortes violentas intencionais, outro dado preocupante: Fortaleza, nossa capital, ocupou a terceira posição no país em 2025, superada apenas por Salvador e Rio de Janeiro. A estatística revela que o drama da violência não se restringe às cidades médias; também atinge, com intensidade, os grandes centros urbanos.

Estatísticas são indispensáveis, mas nunca contam toda a história. Atrás de cada número existe uma cadeira vazia à mesa, uma mãe que não dorme, um filho que cresce sem pai e uma comunidade que aprende a conviver com o luto. Quando a violência se transforma em hábito, o maior risco deixa de ser apenas a delinquência; passa a ser a indiferença — é nesse instante que o crime conquista sua maior vitória.

Quando cidades inteiras passam a viver sob o domínio de facções criminosas, perde-se a liberdade de ir e vir, o comércio recua, famílias mudam de endereço, investimentos desaparecem e o medo passa a determinar a rotina. Quando isso acontece, o crime já invadiu consciências. Como advertiu Nietzsche: “O deserto cresce.”

https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/07/23/ranking-cidades-estados-mais-violentos-anuario-seguranca.ghtml

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/07/veja-quais-sao-as-dez-cidades-com-mais-mortes-violentas-do-pais.shtml?utm_source=chatgpt.com

*Walter Pinto Filho Promotor de Justiça em Fortaleza Autor dos livros CINEMA – A Lâmina que Corta e O Caso Cesare Battisti – a confissão do terrorista. www.filmesparasempre.com.br

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