O negócio é da família. Mas a marca está protegida? Por Frederico Cortez

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Por Frederico Cortez

Toda empresa familiar carrega uma história que dificilmente aparece no contrato social. Muitas vezes, o negócio começa na cozinha de casa, em uma pequena sala comercial, na garagem ou a partir de uma receita transmitida entre gerações.

Há um padrão no empreendedorismo familiar brasileiro, onde um parente assume as vendas, outro organiza as finanças, alguém fica responsável pelas redes sociais e, pouco a pouco, o esforço conjunto se transforma em fonte de renda, patrimônio e identidade para toda a família.

Esse processo de crescimento, entretanto, costuma revelar uma contradição importante. Enquanto o empreendimento investe em fachada, embalagens, uniformes, anúncios, tráfego pago, equipamentos e presença digital, a proteção da marca permanece em segundo plano. O empresário cuida do estoque, instala câmeras, contrata seguro, controla acessos bancários e acompanha cada despesa, mas deixa sem proteção justamente o elemento que identifica o negócio perante o consumidor.

Este cenário revela que a cultura da proteção do negócio ainda não se instalou no empreendedorismo familiar. Ou seja, um campo fértil de insegurança jurídica e com potencial real de jogar na lata do lixo todo o investimento já realizado.

A marca, nesse contexto, não é apenas um nome bonito ou um símbolo estampado na fachada. Ela concentra a reputação da empresa, a confiança construída ao longo do tempo, a lembrança do cliente, a qualidade percebida e a capacidade de gerar novas vendas. Em muitos negócios familiares, o público sequer conhece a razão social ou os nomes dos sócios, mas reconhece imediatamente a marca, associa aquele sinal a uma experiência de consumo e toma decisões com base nessa confiança.

Apesar disso, ainda é comum que o empreendedor acredite que a marca já pertence à família simplesmente porque foi criada por ela. O nome pode ter sido escolhido pelos fundadores, o CNPJ pode estar ativo há anos, o domínio de internet pode ter sido comprado e o perfil nas redes sociais pode reunir milhares de seguidores. Todos esses elementos possuem valor comercial, mas não equivalem ao registro da marca no Instituto Nacional da Propriedade Industrial.

Essa distinção precisa ser compreendida com clareza, especialmente por pequenos e médios empresários. O nome empresarial registrado na Junta Comercial, o domínio utilizado na internet, o perfil mantido em uma plataforma digital e a marca registrada perante o INPI possuem funções diferentes. O fato de determinada expressão estar disponível no Instagram não significa que ela esteja juridicamente livre. Da mesma forma, a existência de um CNPJ com aquele nome não garante exclusividade nacional sobre o sinal utilizado para identificar produtos ou serviços.

O problema é que essa falsa sensação de propriedade costuma permanecer invisível até o surgimento de um conflito. Enquanto a família está unida e a empresa funciona regularmente, quase ninguém pergunta quem é, de fato, o titular da marca. Ela pertence à pessoa jurídica, ao fundador, ao casal, aos irmãos que iniciaram o negócio ou ao filho que criou o nome e passou a administrar as redes sociais? O domínio foi registrado em nome de quem? O logotipo foi desenvolvido mediante contrato de cessão? As senhas e os acessos estão vinculados à empresa ou ao telefone pessoal de um funcionário?

Essas questões parecem excessivamente formais enquanto não há desentendimento. No entanto, depois de um falecimento, de um divórcio, da saída de um sócio, de uma disputa entre herdeiros ou do rompimento com um parceiro comercial, tornam-se centrais. Há empresas que vendem, empregam, faturam e crescem sem que ninguém saiba com segurança quem controla seus principais ativos imateriais.

A informalidade pode explicar o nascimento de um negócio familiar, mas não deve comandar sua maturidade.

Outro equívoco recorrente está em reduzir a marca à identidade visual. O desenho, as cores e o logotipo fazem parte da comunicação, porém a marca possui dimensão econômica muito mais ampla. É ela que permite ao consumidor reconhecer a origem de um produto ou serviço, diferenciar aquela empresa de seus concorrentes e transferir para novas unidades, linhas ou canais de venda a confiança já construída.

Por essa razão, uma marca pode representar valor superior ao de muitos bens materiais da empresa. Máquinas podem ser substituídas, veículos podem ser vendidos e imóveis podem ser reformados, mas a perda da identidade comercial pode obrigar o empreendimento a reconstruir sua presença no mercado quase do zero.

Quando uma família é forçada a abandonar o nome pelo qual ficou conhecida, não perde apenas uma palavra ou um símbolo. Perde parte da memória acumulada no relacionamento com seus clientes.

Mesmo diante desse risco, o registro costuma ser adiado sob o argumento de que será providenciado quando a empresa crescer, abrir uma nova unidade ou alcançar maior faturamento. A frase “depois a gente registra” talvez seja uma das mais perigosas do empreendedorismo familiar, porque parte da ideia de que a ausência de conflito representa segurança.

Atenção aqui, o fato de ninguém ter questionado a marca até hoje não significa que não exista pedido anterior, registro conflitante ou terceiro interessado em utilizar sinal semelhante.

Enquanto o empresário adia a proteção, outra pessoa pode apresentar um pedido no INPI, um ex-parceiro pode reivindicar o nome, um concorrente pode começar a utilizar identidade próxima ou uma plataforma pode receber uma denúncia envolvendo o perfil comercial. Quando isso acontece, o problema deixa de ser preventivo e passa a exigir defesa administrativa, negociação, mudança de posicionamento ou até discussão judicial.

O prejuízo, nesse cenário, não se limita aos custos jurídicos. A empresa pode precisar trocar fachada, embalagens, etiquetas, cardápios, uniformes, materiais publicitários, endereço eletrônico e identificação nas redes sociais. Campanhas são suspensas, clientes ficam confusos, a comunicação perde consistência e o empreendimento passa a gastar para reconstruir uma identidade que poderia ter sido protegida desde o início.

O aspecto mais grave é que, sem a devida organização, uma família pode passar anos investindo em um nome que juridicamente não lhe pertence. Cada anúncio aumenta o reconhecimento da marca, cada novo cliente fortalece sua reputação e cada produto vendido amplia o valor daquele sinal no mercado. O empreendedor acredita que está construindo patrimônio, mas pode estar apenas aumentando a notoriedade de um ativo vulnerável.

Quanto mais conhecido o negócio se torna, maior tende a ser o custo de uma eventual mudança. Por isso, o registro não deve ser procurado apenas quando a marca já está consolidada ou quando o conflito aparece. Ele precisa integrar o planejamento empresarial desde as primeiras decisões sobre nome, identidade, expansão e posicionamento.

A sucessão familiar também depende dessa organização. Empresas familiares costumam discutir quem assumirá a gestão, como as quotas serão distribuídas e qual será o papel de cada herdeiro, mas frequentemente ignoram a titularidade da marca. O planejamento sucessório fica incompleto quando não contempla o ativo que concentra a reputação e a continuidade comercial do negócio.

É a marca que permite à nova geração assumir uma empresa já reconhecida pelo mercado, preservando a confiança construída pelos fundadores. Entretanto, não se transmite com segurança aquilo que nunca foi devidamente protegido. Quando a titularidade permanece indefinida, o falecimento de um fundador ou a reorganização societária pode transformar a marca em objeto de disputa, justamente quando ela deveria funcionar como elemento de continuidade.

Profissionalizar a empresa familiar não significa abandonar sua essência ou substituir relações de confiança por excesso de burocracia. Significa criar condições para que a história construída pela família não fique vulnerável a conflitos, omissões ou decisões improvisadas. Contratos, definição de titularidade, controle de acessos e registro da marca não afastam o caráter familiar do empreendimento; ao contrário, ajudam a preservá-lo.

A confiança entre parentes continua sendo importante, mas não resolve sozinha questões patrimoniais. A tradição também possui valor, porém não substitui a proteção jurídica. Da mesma forma, o uso prolongado de um nome não deve servir como desculpa para ignorar o registro, especialmente quando o negócio já alcançou relevância econômica.

Essa preocupação se torna ainda mais necessária em empresas que dependem fortemente das redes sociais. Para muitos pequenos empreendedores, o perfil digital deixou de ser apenas um canal de divulgação e passou a concentrar atendimento, vendas, relacionamento com clientes e construção de reputação. Perder o nome utilizado nessas plataformas pode comprometer uma parte significativa da operação e provocar dano que vai muito além da troca de um identificador.

O registro da marca, portanto, não deve ser tratado como formalidade burocrática nem como despesa dispensável. Trata-se de uma decisão de proteção patrimonial e de continuidade empresarial. Antes de investir em expansão, franquias, novos produtos, influenciadores ou campanhas de maior alcance, é necessário verificar se o nome que será fortalecido pode, de fato, ser utilizado e protegido.

O pequeno e médio empresário precisa abandonar a ideia de que propriedade intelectual é assunto exclusivo de grandes corporações. As grandes empresas registram suas marcas porque conhecem o valor estratégico desses ativos. As pequenas e médias precisam fazer o mesmo justamente porque possuem menos recursos para suportar uma disputa prolongada ou reconstruir sua identidade comercial.

Uma multinacional pode absorver parte do custo de uma mudança de marca. Para um negócio familiar, essa alteração pode comprometer anos de trabalho, investimento e confiança. O empreendimento pode ter começado de forma simples, com poucos recursos e muita dedicação, mas não deve permanecer juridicamente amador depois de se tornar economicamente relevante.

No empreendedorismo familiar, proteger a marca significa proteger mais do que um nome. Significa preservar a reputação construída pelos fundadores, garantir continuidade para as próximas gerações e impedir que todo o investimento realizado pela família permaneça exposto.

Afinal, não basta afirmar que o negócio pertence à família. É necessário organizar juridicamente a titularidade daquilo que o mercado reconhece como seu principal patrimônio. O maior risco não está apenas em alguém copiar o nome, mas em descobrir, depois de anos de trabalho, que toda a família ajudou a valorizar uma marca que nunca teve o cuidado de proteger.

Frederico Cortez é advogado, fundador do escritório Frederico Cortez Advocacia. Especialista em direito empresarial, propriedade intelectual e direito digital. Palestrante e escritor de artigos de opinião jurídica, sendo referência bibliográfica em obras jurídicas e trabalhos acadêmicos. Presidente da Comissão Especial de Propriedade Intelectual da OABCE. Fundador da startup Youmarca – Proteção Intelectual.

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