Curiosidades cearenses – Lisbonense: a padaria que virou shopping

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Por Sérgio Jaborandy

Das poucas lembranças que resistem intactas à erosão do tempo, poucas são tão poderosas quanto o cheiro de pão quente atravessando a casa nas primeiras horas da manhã. É um aroma que não apenas alimenta: convoca a infância!!!

Nasci em 1961, numa casa na Rua J. da Penha, 763, quase esquina com a Rua Padre Valdivino. O telefone era 1-78-43. Fortaleza ainda vivia em outro compasso. Não havia aplicativos de entrega, supermercados 24 horas ou conveniências instantâneas. O leite chegava à porta, a carne vinha do açougueiro conhecido da família, os peixes eram anunciados pelos vendedores ambulantes e o pão era entregue em domicílio pelos próprios padeiros.

O nosso chamava-se “Raimundo Padeiro”. No início, surgia equilibrando ao ombro um grande cesto de vime, que baixava e erguia com a destreza de quem repetia o mesmo gesto dezenas de vezes por manhã. Depois veio a bicicleta cargueira. Mais tarde, uma Lambretta furgão. E, por fim, uma Kombi furgão. A trajetória de Raimundo parecia resumir, em miniatura, a própria modernização de Fortaleza.

Mas havia um ritual ainda mais esperado: as viagens diárias de minha mãe ao Centro. Quando ela voltava, trazia quase sempre um pequeno tesouro da Padaria Lisbonense — a inesquecível Maria Maluca, uma bolacha grande, arredondada, mais espessa e saborosa que a bolacha Maria industrializada — que dominaria o mercado anos depois.

A Lisbonense ficava na Rua Pedro Borges, a poucos passos da Praça do Ferreira e do tradicional Leão do Sul. Para uma criança, aquilo era uma espécie de parque de diversões gastronômico. O enorme balcão exibia fileiras de bolachas, biscoitos, doces e pães de todos os tipos, espalhando pelo salão um perfume irresistível de trigo recém-assado.

Minha mãe tinha um pedido quase litúrgico: quatro pães d’água e quatro pães sovados. O pão sovado, herdeiro da tradição portuguesa, recebia esse nome porque a massa era longamente sovada — isto é, amassada vigorosamente até adquirir uma textura mais lisa, macia e levemente adocicada, enriquecida com leite, ovos e gordura — uma fofura deliciosa!!!! Já o pão d’água nada mais era do que o nosso velho e democrático pão francês.

Quando a casa recebia visitas consideradas importantes, surgia um terceiro personagem: o pão semolina, preparado com sêmola de trigo duro, de casca mais crocante, miolo amarelado e sabor mais pronunciado. Era o pão das ocasiões especiais.

A Padaria e Confeitaria Lisbonense foi fundada oficialmente em março de 1916 pelos portugueses Pelágio Rodrigues de Oliveira, José Teixeira de Abreu e Abílio Rodrigues de Oliveira. Em 20 de abril de 1927, transferiu-se para o endereço da Rua Pedro Borges, 151/157, onde permaneceria por mais de meio século.

Ao longo das décadas, transformou-se em muito mais do que uma padaria. Era ponto de encontro, referência afetiva e instituição da vida urbana fortalezense. Produzia pães, bolos, doces, massas e o famoso “pão do chá”, presença obrigatória nas mesas das famílias que frequentavam o Centro antigo.

Em 10 de outubro de 1983, a Lisbonense encerrou suas atividades. Alegava-se, à época, que suas instalações industriais contribuíam para a poluição e os problemas urbanos do Centro. O fechamento causou enorme repercussão entre os frequentadores habituais, que viam desaparecer não apenas um estabelecimento comercial, mas um pedaço da memória da cidade.

O curioso é que o prédio sobreviveu. Anos depois, o imóvel foi adaptado para uso comercial e passou a abrigar o Shopping Lisbonense, preservando no nome a lembrança da antiga padaria.

Hoje, quem atravessa aquele trecho movimentado do Centro talvez não imagine que, atrás das vitrines e corredores do shopping, existiu um lugar onde gerações de fortalezenses aprenderam a associar felicidade ao simples ato de repartir um pão ainda quente.

Afinal, algumas cidades guardam sua história em monumentos. Fortaleza também a guardou no cheiro de pão saindo do forno da velha Lisbonense. E você? Conhecia essa história?

Sérgio Jaborandy é Engenheiro, foi aluno do Colégio Militar de Fortaleza e Oficial da Marinha Mercante.

 

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Ceará consolida elite da educação brasileira no Ideb; Brasil segue sem atingir metas do ensino médio

TRE rejeita tese do relator e mantém Federação União Progressista na chapa de Ciro Gomes

Quaest abre vantagem para Ciro, mas a campanha ainda reserva muitas variáveis

Emandas bilionárias e outros privilégios deve baixar índice de renovação de mandatos federais

Selo do TSE divide institutos; AtlasIntel apoia iniciativa e acende debate sobre precisão das pesquisas

Aval de Lula consolida Cid Gomes como candidato ao Senado e aproxima definição da chapa governista no Ceará

O Duplo Twist Carpado de Mauro Filho

Obtuário: Cid Carvalho, uma voz que atravessou gerações da comunicação e da política cearense

A chapa dos sonhos do governismo no Ceará

Jogando na defesa e no ataque, Romeu Aldigueri se torna referência no enfrentamento com a oposição

Ceará como um dos elos da nova cadeia automotiva mundial e a bad trip da nossa política

O silêncio de Cid Gomes não é dúvida. É método.

MAIS LIDAS DO DIA

Curiosidades cearenses – Lisbonense: a padaria que virou shopping