
Morreu nesta quarta-feira (19), aos 82 anos, Nelson Bernardes Prado, fundador da Queijaria Laguna, em Paracuru. Empresário de origem paulista, ele chegou ao Ceará nos anos 1970 e construiu uma trajetória que uniu pecuária, indústria e inovação.
Nelson nasceu em 6 de agosto de 1944. Antes de se dedicar à atividade rural, trabalhou com máquinas agrícolas e passou pelos setores de siderurgia e mineração. No Ceará, começou a desenvolver projetos ligados ao campo e, posteriormente, adquiriu a Fazenda Laguna, em Paracuru.
A propriedade tinha uma característica que, para muitos, seria uma dificuldade: o solo arenoso da região litorânea. Nelson decidiu fazer dali um campo de experimentação.
Durante os primeiros anos, criou gado bovino. Os resultados não o convenceram. A mudança veio em 1992, quando decidiu apostar na criação de búfalas, atividade ainda pouco conhecida no Ceará.
A escolha tinha também uma história familiar. Nelson já conhecia a criação de búfalos por meio de parentes ligados à pecuária e à genética animal. Trouxe os primeiros animais e começou a acompanhar de perto sua adaptação às condições do litoral.
Os resultados foram positivos.
Em uma reportagem sobre a Fazenda Laguna, Nelson resumiu sua maneira de administrar a propriedade:
“Aqui na Laguna nada de paixão, somos guiados pelos resultados!”
A frase dizia muito sobre sua forma de trabalhar. A criação de búfalas não seria apenas uma experiência. Precisava ser economicamente viável.
O rebanho cresceu, a seleção dos animais foi aprimorada e a Fazenda Laguna passou a ser reconhecida no setor. A propriedade chegou a reunir centenas de búfalos da raça Murrah e desenvolveu sistemas de manejo e produção de leite adaptados às condições locais.
Foi do leite que nasceu a segunda parte da história: a Queijaria Laguna.
Os primeiros queijos eram feitos de maneira simples, na cozinha da família. Maria Helena, mulher de Nelson, participou desde o começo. O filho Nelson Prado Filho também entrou cedo no negócio.
Em entrevista à revista +Leite, ele contou como eram os primeiros anos:
“Quando terminei o colégio, passei a ir à fazenda de madrugada, carregava isopores com queijos e vendia em Fortaleza.”
A produção foi aumentando. Vieram o primeiro funcionário, as entregas para hotéis e uma estrutura industrial maior. O leite bovino também passou a fazer parte da operação, permitindo ampliar a produção e diversificar os produtos.
Mas o leite de búfala continuou sendo uma das marcas da empresa.
A Laguna passou a produzir queijos frescos, maturados e defumados, além de variedades especiais. A empresa investiu em produtos de maior valor agregado e consolidou uma posição pioneira no mercado cearense de derivados de leite de búfala.
O filho de Nelson resumiu a estratégia da família em outra frase:
“Nosso foco está na qualidade, não no preço.”
A empresa também passou a trabalhar com produtores de leite bovino de diferentes municípios, oferecendo orientação sobre manejo, sanidade e qualidade da matéria-prima. A atividade, portanto, deixou de estar restrita à fazenda e passou a envolver uma cadeia maior de produtores e trabalhadores.
Nelson acompanhou essa transformação ao lado da família. Os filhos assumiram diferentes funções na administração da fazenda e da indústria, dando continuidade ao empreendimento.
Em entrevista, Nelson Prado Filho lembrou a influência do pai sobre a forma de conduzir o negócio:
“Desde que meu pai começou, sempre tivemos essa mentalidade de experimentar e inovar, buscando novas oportunidades dentro do mercado.”
A Associação Brasileira de Criadores de Búfalos, da qual Nelson integrou a diretoria, destacou sua contribuição para a expansão da atividade no Nordeste.
“Seu trabalho ajudou a ampliar o conhecimento sobre a criação de búfalos no Nordeste e deu origem a um projeto familiar que permanece ligado à atividade.”
É uma síntese adequada para uma trajetória que começou com uma fazenda no litoral e terminou associada a uma das marcas mais conhecidas do setor de queijos especiais no Ceará.
Nelson Bernardes Prado deixa a Fazenda Laguna, a Queijaria Laguna e uma empresa conduzida pela própria família. Deixa também uma experiência que ajudou a mostrar que a criação de búfalas poderia encontrar espaço no litoral cearense e que o leite produzido ali poderia se transformar em uma indústria de alimentos.
A Queijaria Laguna comunicou a morte do fundador em uma nota na qual o chamou de “o alicerce” de sua história.
“Mais do que um grande empresário, Sr. Nelson foi um mestre, amigo e inspiração diária para colaboradores, parceiros e todos que tiveram o privilégio de conviver ao seu lado.”
O velório será realizado nesta quarta-feira (19), a partir das 20 horas, no Complexo Velatório Ethernus. A missa está marcada para as 19 horas. Depois das despedidas, Nelson será cremado.
A história empresarial segue com a família. A origem, porém, continuará ligada ao homem que, há mais de 30 anos, decidiu trocar as vacas por búfalas e apostar em uma atividade que ainda não tinha lugar definido no Ceará.






