
Hoje, ouvi de um amigo uma frase habitualmente repetida na Alemanha, segundo ele, desde que o nazismo foi vencido pelas forças aliadas e pela ação heroica de muitos germânicos que souberam resistir ao terror do III Reich.
Não a conhecia, mas me dei a refletir sobre seu significado e é isso o que tenho a compartilhar hoje com vocês. Dizem eles, gravei bem: “É impossível uma pessoa ser inteligente, honesta e de extrema-direita ao mesmo tempo”.
Intrigado com o veemente rigor de sua sentença, a submeti ao método lógico e busquei exemplos vivos que pudessem servir como critérios de verificação para, ao fim, concordar: é impossível ser inteligente, honesto e de extrema-direita ao mesmo tempo.
Uma pessoa inteligente só é capaz de sustentar posições fascistas (uso o termo em sentido amplo) movida por interesses particulares ou dominada por sentimentos que não consegue controlar, nem admitir – isto é, não está sendo honesto.
No entanto, se alguém honesto, movido por um alinhamento coerente entre o que pensa e pratica, adere às ideias de extrema-direita e nelas se sente justificado, dá provas de grande deficiência cognitiva ou precária formação intelectual.
Contudo, se este indivíduo de bons propósitos, que aspira portar traços de caráter virtuosos, for inteligente e estiver amparado na observação objetiva e fiel da realidade dos fatos, certamente não conseguirá por muito tempo persistir identificado com uma ideologia excludente, preconceituosa e disposta a recomendar uma ação política de fria indiferença ao que representa a dignidade humana.
Ao perceber que metade da população adulta brasileira não se dá conta do que a candidatura de Flávio Bolsonaro de fato representa ou, ainda, que parte dela até compreende, mas cogita que ela possa legar à nação benefícios duráveis, em valores humanos ou bens materiais coletivos, fico aqui a me perguntar – mesmo resistindo a enfrentar a aspereza da resposta: O que foi feito de nós?
A pergunta tem se repetido, diversas vezes por dia em minha mente, acompanhada por um indisfarçável sentimento de tristeza: o que foi feito de nós?
Não quero, e tenho feito o pouco que me cabe para evitá-lo, ir para a cama na noite do dia 25 com a sensação de que nós, as gerações que lutaram pelo fim da ditadura militar, fracassamos. Algo em mim diz que não será assim. Preciso acreditar que não.








