
O Nordeste há tempos vem ganhando posição no mapa da riqueza brasileira. Não somente na lista de bilionários da Forbes, que há pelo menos uma década mostra o impressionante desempenho de empresários nordestinos, principalmente, cearenses no ranking. Agora, outra fronteira começa a ser mais vista: No primeiro semestre de 2026, a região ultrapassou o Sul e passou a ocupar o segundo lugar nacional em volume de patrimônio sob gestão, atrás apenas do Sudeste.
Os dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), citados em reportagem do Estadão, mostram que o Nordeste alcançou R$ 60,5 bilhões sob gestão, alta de 9,4% no primeiro semestre. O Sul, rico e de cultura europeizada, por sua vez, recuou 1,2%, para R$ 55,8 bilhões.
O avanço é ainda mais expressivo quando observado em perspectiva: desde 2020, o volume sob gestão no Nordeste cresceu 752,1%, a maior expansão entre as cinco regiões brasileiras.
Fortaleza no radar das gestoras
A expansão regional começa a atrair instituições financeiras em busca de novos clientes e oportunidades de negócios. Na AVIN Investimentos, que administra quase R$ 19 bilhões, Fortaleza, Teresina e Salvador estão entre as praças com maior projeção de crescimento: de 25% a 30% ao ano, acima da média de aproximadamente 20% das demais unidades.
Segundo declararação ao Estadão, Thiago Fujiwara, sócio e membro do conselho da gestora, a expansão responde à demanda por atendimento especializado, sobretudo entre investidores e famílias de alta renda.
A avaliação é que o relacionamento oferecido pelos grandes bancos se tornou mais digital e menos personalizado, abrindo espaço para gestoras capazes de oferecer acompanhamento próximo e soluções ajustadas ao perfil de cada cliente.
O patrimônio vai além dos investimentos financeiros
Na Astor Partners, que administra R$ 1,5 bilhão e atende famílias da Paraíba, de Pernambuco, do Ceará e da Bahia, a atuação inclui planejamento patrimonial, sucessão familiar e avaliação de outros negócios dos clientes. O sócio Ravi Macêdo destaca que a proposta é acompanhar o patrimônio de forma integrada, considerando não apenas aplicações financeiras, mas também empresas, imóveis, riscos e objetivos familiares.
O que disse Ravi Macêdo
“Nos tornamos conselheiros financeiros em diferentes aspectos da vida patrimonial das famílias. Avaliamos os outros negócios em que o cliente pretende investir, discutimos a sucessão e o planejamento familiar. Olhamos para o patrimônio como um todo.”
Macêdo também aponta um desafio: ampliar a cultura de investimentos em produtos financeiros entre os clientes nordestinos, que ainda demonstram preferência por ativos reais, como imóveis e participações em empresas.
“Existe um trabalho gradual de começar a implementar uma visão mais de portfólio para equilibrar a equação de risco e retorno.”
Mercado de capitais ganha novas frentes
Segundo a reportagem, o movimento não se restringe à gestão de grandes fortunas. Consultorias e gestoras locais avançam na estruturação de fundos, operações de crédito e produtos financeiros, como Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) e Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs).
Para Bruno Barreto, advogado especializado na área e sócio da Urbano Vitalino Advogados, a região ainda oferece oportunidades pouco exploradas.
“Eu sempre digo que, de Salvador para cima, há um ‘oceano azul’ para atuação dos gestores. Há potenciais clientes que acessam pouco o mercado financeiro, seja por receio ou por desconhecimento.”
A Leto Capital, com R$ 23 bilhões sob gestão, também aposta nesse potencial. A aquisição dos fundos de crédito da Novus Capital trouxe para a equipe executivos com experiência na estruturação de operações de crédito privado no Ceará.
A estratégia inclui explorar oportunidades ligadas à economia real, como infraestrutura digital. No Ceará, a construção do centro de dados da ByteDance, dona do TikTok, no Complexo do Porto do Pecém, é apontada como exemplo do potencial de atração de investimentos.
Por que isso importa
O crescimento da gestão de patrimônio indica uma transformação na economia nordestina: além de atrair investimentos produtivos, a região passa a ganhar relevância na administração e na alocação de recursos financeiros. Para Fortaleza, o movimento tende a ampliar a oferta de serviços especializados, aproximar empresas do mercado de capitais e fortalecer a rede de profissionais ligados a investimentos, crédito e planejamento patrimonial.
O desafio será transformar a expansão dos volumes sob gestão em maior acesso a serviços financeiros qualificados e em novas oportunidades de financiamento para empresas da região.
Fonte: Estadão, reportagem de Daniel Rocha, publicada em 13 de outubro de 2026, com atualização às 15h14.







