
Nesta sexta-feira tem um debate? Tem sim, senhor! – e não é por mero acaso que este artigo começa parafraseando os animadores circenses: o que poderia ser um recurso democrático de elucidação para a escolha consciente do voto vira aquilo quando um fascista entra em cena – um espetáculo, nem sempre divertido e frequentemente patético.
No domingo último, houve uma dessas apresentações que não se recomenda à audiência das crianças, o debate da Band. Impossível, para as gerações que lutaram contra a ditadura militar e se comprometeram em edificar a democracia como virtude da civilidade, assistir aquilo sem um incômodo sentimento de fracasso – desculpe o termo, não tenho outro para dourar a pílula.
Ali estava um homem de idade, usando as forças que lhe restam para defender o que é fundamental na sua luta de vida inteira. Uma personalidade contraditória – idealista, mas conciliador radical – que não será beatificado pela história, como quase ninguém foi, mas é potente em sua singularidade: a história pessoal de Lula é a representação individual do sonho coletivo de uma nação, de romper a couraça da exclusão e conquistar protagonismo.
No estúdio da emissora e diante do país, o presidente fazia um esforço desconcertante para se adaptar à triste circunstância de enfrentar em debate um gângster com trejeitos adolescentes e o cinismo de um psicopata hereditário. Um senador da linhagem de Incitatus, que frequentava cultos evangélicos e fazia orgia em lanchas, com lobistas de vacinas e garotas do “job”, enquanto a sociedade governada por seu pai já houvera perdido mais de setenta mil vidas sem que o então presidente tivesse autorizado a compra de um frasco sequer de medicamento.
A falta de compostura demonstrada por Flávio Bolsonaro teve um custo. No dia seguinte, as redes sociais foram inundadas pela inesperada tsunami de uma esquerda que finalmente aprendeu, num estalo, a dialogar com o tenebroso algoritmo de igual para igual e desvelou a real personalidade do moleque. Já na terça-feira, sua propaganda eleitoral foi toda dedicada a produzir uma redução de danos. A própria imprensa não disfarçou ao seu público o estupor de quem se sentiu ameaçado por uma força que não reconhece limites (ver, por exemplo, editorial do liberal insuspeito, O Estadão).
Agora, nos chega a notícia de que Flávio Bolsonaro irá ao debate da TV Globo nesta sexta-feira com mudanças em sua equipe de assessores, menos aloprados. Significa que mostrar sua verdadeira face, de mentiroso compulsivo, pegou muito mal e vai tentar disfarçar melhor, concedendo aos eleitores um melhor exemplo de caráter. Duvido muito que consiga. E por uma razão muito simples: não há outro – O Flávio que existe é aquele. E este é o Brasil que temos.








