
Em 1995, participei, como um dos fundadores nacionais, da criação do Partido Solidarista Nacional (PSN), que posteriormente passou a se chamar Partido Humanista da Solidariedade (PHS).
No ano seguinte, em 1996, fui eleito vereador de Fortaleza. Pelo mesmo partido, exerci dois mandatos de vereador e, posteriormente, outros dois como deputado estadual. Ainda no exercício do mandato parlamentar, fui eleito presidente nacional do PHS.
Ao longo dessa trajetória, disputei seis eleições, incluindo uma candidatura à Prefeitura de Fortaleza e outra à Câmara dos Deputados, em 2010.
Em nenhuma dessas campanhas recebi um único centavo de financiamento público eleitoral. As despesas eram custeadas com recursos próprios, sempre limitados, e pequenas contribuições de amigos e apoiadores que acreditavam em nossas propostas.
Fazia-se política com ideias, militância, trabalho e convencimento. Não havia milhões de reais disponíveis para transformar candidaturas em empreendimentos financeiros. Depois, surgiu o modelo de financiamento público.
Nas eleições de 2026, aproximadamente R$ 4,96 bilhões do Fundo Especial de Financiamento de Campanha foram destinados aos partidos políticos, acrescidos de R$ 1,43 bilhão do Fundo Partidário. É uma quantidade extraordinária de dinheiro público, distribuída entre organizações partidárias para custear campanhas eleitorais.
O propósito declarado do financiamento público, que deveria fortalecer a democracia, corre o risco de alimentar uma verdadeira indústria de candidaturas.
Convido o leitor a fazer um exercício simples. Acesse o sistema DivulgaCandContas, do Tribunal Superior Eleitoral, e consulte as prestações de contas dos candidatos. Compare quanto cada um recebeu, como gastou os recursos e quantos votos conquistou. Os resultados podem surpreender.
Vou mencionar um episódio que despertou minha atenção.
Determinado candidato a deputado federal recebeu R$ 200 mil de recursos eleitorais para financiar sua campanha. Na prestação de contas inicial, declarou ter utilizado praticamente todo o dinheiro no pagamento de algumas pessoas. Pouco depois, renunciou à candidatura.
Isso se soma a outros casos de candidatos que receberam cinco vezes mais e obtiveram uma votação que poderia ser alcançada com os votos da família e de alguns amigos.
Minha experiência na política me leva a temer que parte dessas situações termine apenas em procedimentos burocráticos, nos quais a regularidade documental acabe recebendo mais atenção do que a efetiva prestação dos serviços.
Uma nota fiscal comprova a emissão de um documento. Não necessariamente demonstra que o serviço contratado foi realizado na extensão, na qualidade e pelo valor declarado.
Um contrato formalmente perfeito pode esconder uma operação economicamente injustificável. Um pagamento bancário comprova a transferência do dinheiro, mas não elimina a possibilidade de simulação.
A questão é que o Brasil precisa discutir não apenas quanto custa eleger seus representantes, mas, sobretudo, quanto dinheiro público está sendo efetivamente utilizado para fazer política e quanto pode estar sendo desperdiçado ou desviado sob o manto da legalidade.
Fica a pergunta:
Será que existem crimes nessas prestações de contas?








