Consta que em um não tão belo dia o profeta Jonas desobedeceu a uma ordem divina, e em fuga de sua missão embarcou de Israel para a Espanha. No percurso pelo Mar Mediterrâneo uma terrível tempestade apanhou o barco. Os dedos indicadores dos marinheiros apontaram para o pecador Jonas como responsável pela fúria dos ventos e das ondas.
O salto dele para o mar, voluntário ou não, acalmou as águas, porém não a Santa ira, desejosa de um sacrifício maior. Jonas foi então engolido por uma baleia, dentro da qual viveu três dias e três noites até ser regurgitado em uma praia não identificada no livro sagrado.
Os cantores e compositores Sá, Rodrix e Guarabira aproveitaram o tema e escreveram, nos idos de 1973, uma canção detalhando como teria sido a vida do profeta durante aqueles dias: “A baleia é sua casa, sua cidade, dentro dela guarda suas gravatas, seus ternos de linho.” E mais: Jonas declara morar na baleia “por vontade própria”, e lá permaneceria “até o fim da vida, até subir pro Céu”.
O santo homem punido expõe suas razões na canção: “Dentro da baleia a vida é tão mais fácil”, nada incomoda seu silêncio e sua paz. “Quando o tempo é mau a tempestade fica de fora. A baleia é mais segura que um grande navio.”
Lembrei de Jonas, do Mestre Jonas da música, e lembrei da baleia ao ler a sinopse de um filme recém-lançado com o autoexplicativo título “Dentro da Baleia”. De acordo com o roteiro, um mergulhador californiano em busca dos restos mortais do pai, também mergulhador, é engolido inteiro por um cachalote gigante.
Não apenas essa desdita, mas tem ele apenas uma hora de oxigênio nos tanques que carrega nas costas para tentar deixar as entranhas do monstruoso animal.
Verdade que a mera leitura do enredo foi suficiente para me tirar o fôlego.
Imagino que, enquanto se desenrolarem as cenas do mergulhador tateando as paredes viscosas do estômago do cachalote, pisoteando as vísceras expostas, observando o funcionamento interno do mecanismo vital do monstro, tentando encontrar a saída pela mesma porta da entrada, estaremos sentados na ponta da cadeira do cinema ou do sofá, torcendo para vê-lo emergir do mar à luz do dia, com o indispensável e cinematográfico arquejo de alívio que possivelmente (não posso garantir…) conduza ao final feliz.
Com certeza aparecerão camadas de leituras e sub-leituras do filme, como se deu com a narrativa bíblica e com a canção. Não consigo decifrar apropriadamente o que significam versões tão fantásticas da mesma história, e arrisco uma única interpretação: quem teve a pouca sorte de ser engolido por uma baleia metafórica – seja ela o trabalho, uma paixão, uma situação complicada ou uma irredutível convicção – que busque sua maneira de assumir sem queixas a situação em que se encontra. Ou, ao contrário, que lute para retornar à superfície.
A última alternativa é aguardar ser vomitado sobre a areia – ou esperar para ser depositado debaixo dela.
Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.







