A disputa nuclear da Caxemira e sua influência no Ceará, por Igor Macedo de Lucena

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Na última semana um importante fato passou quase que despercebido pela mídia brasileira, entretanto sinalizou para analistas e estudiosos um importante sinal sobre tensões no continente asiático relacionados ao poder, a economia e força nuclear no mundo.
Acompanhamos mais uma vez conflitos na Caxemira, uma região localizada no subcontinente indiano que é palco de disputas entre a Índia e o Paquistão (duas potências nucleares) desde o fim da colonização desses países em 1947. A região, que ocupa parte do território indiano e parte do paquistanês, nunca chegou a ser independente. A maior parte do território da Caxemira está anexado Índia, algo que incomoda os paquistaneses.
A Índia além de ter uma população de 1,2 bilhões de pessoas, provavelmente será a segunda maior economia do mundo nos próximos 50 anos. Do ponto de vista do poder, a Índia possui um poder econômico em ascensão, puxado pelo consumo das famílias e por sua capacidade de investimentos em tecnologia da informação e serviços globais.
A influência da Índia cresce na região juntamente com sua população, fazendo com que países como a China e a Rússia analisem sempre as consequências de seus atos para com os indianos. Por último, e talvez mais importante, a Índia hoje é detentora do segundo maior contingente de forças armadas do planeta, dotado de uma forte capacidade de armas atômicas a sua disposição.
E o que tudo isso tem a ver com o Brasil?
Nações de uma maneira geral exercem seu poder por meio da sua economia ou do seu poder de compra, da sua diplomacia e da sua capacidade de influenciar as ações de outros agentes ou por meio de sua força militar fazendo com que outra nações tenham medo de represálias ou invasões. Essas características mostram que a Índia já ostenta com relativa capacidade o poder econômico e o poder diplomático.
No campo do poder militar a força já é atômica, mostrando ao mundo que não é mais uma simples nação e sim uma potência capaz de sentar na mesa com os old big players e exigir a defesa de seus interesses e do seu povo, tudo isso em pouco mais de 60 anos de independência.
Aqui no Brasil a abertura econômica formatada pela equipe do ministro Paulo Guedes, caso vitoriosa, tende a deslanchar a economia brasileira pelos próximos 20 anos, mantendo nosso país entre os maiores players econômicos do mundo.
No campo diplomático encontramos algo mais sensível, pois o Brasil precisa achar maneiras mais ágeis de influenciar outras nações, começando por seus vizinhos. Um caminho inicial poderia ser uma reformulação do Mercosul, na qual o peso econômico do Brasil fosse capaz de moldar fundamentalmente as decisões de seus parceiros, assim como a Alemanha exerce na União Europeia.
No caso do poder militar, a expansão da força brasileira passa em um primeiro momento, com a aproximação do governo Bolsonaro junto aos Estados Unidos, por algo que pode prover uma chance única para uma melhoria tecnológica das forças armadas brasileiras, tanto na defesa das fronteiras como na prevenção de conflitos.
Outro aspecto a ser considerado, é baseado na Realpolitik, em que as nações em desenvolvimento como a Índia, a China, a Rússia e mesmo o Paquistão se impõem nas disputas internacionais por terem desenvolvido capacidades atômicas para sua proteção contra qualquer tipo de invasores.
Pode-se debater muito e entendo as críticas que podem advir de falar em “nuclearizar” o Brasil em pleno século XXI, algo que é bastante controverso, entretanto o mundo está se tornando um lugar cada vez mais perigoso e a ideia realista de self-help, ou seja cada país por si na defesa de seus interesses se mostra diariamente em expansão. Os fatos históricos advindos do poder militar mostram que nos últimos anos os interesses que prevaleceram nas disputas internacionais foram majoritariamente aqueles das potências nucleares, seja pelo poder da intimidação ou pela expansão de seus projetos.

Não estou aqui advogando que devemos possuir uma bomba atômica no estoque do Exército Brasileiro, mas é fundamental que tenhamos tecnologias e conhecimento para nossa própria proteção. Para o Ceará essa realidade passa por transformações econômicas muito importantes, como se pode verificar através da região de Itataia que possui a maior mina de urânio fóssil do Brasil com potencial para produção de 1600 toneladas de concretado de urânio e 240 toneladas de fosfato por ano, que infelizmente até hoje nunca foi explorada.

Não tenho dúvidas que se esse tipo de riqueza estivesse nos Estados Unidos ou na Índia a sua exploração já estaria ocorrendo, tanto pelos benefícios econômicos quanto pelos usos científicos e militares que se mostram estratégicos.
Para o Ceará, trata-se de um potencial que infelizmente não é aproveitado. As últimas gestões federais não foram hábeis para trabalhar com esse importante asset cearense, mas é possível que um governo com forte composição militar possa trabalhar a exploração de Itataia e desenvolver uma força militar necessária para defesa dos interesses econômicos, científicos e soberanos do país.
Como diriam os americanos: “That is a matter of Brazilian National Security”.


Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden. Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs. Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

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