A incerteza é o problema da vez, por Igor Macedo de Lucena

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Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

O coronavírus aflorou na sociedade um conjunto de problemas que são inéditos para a grande maioria da população. Os órgãos de saúde buscam como deter uma pandemia e diminuir a mortalidade. Os governos, como manter os empregos. Os empresários, como e quando continuar suas vendas. Os bancos procuram uma forma de evitar uma explosão na inadimplências.

Em busca de soluções, muitas respostas tendem a se chocar com dicotomias incoerentes, expressas através da “atividade econômica contra a saúde” e colocando a população em uma crise social nunca antes vista.

Apesar de se apresentarem como problemas bastante distintos, com partes difusas e interesses diferentes, podemos sumarizar todos essas questões em uma única, que é o que realmente aflige todos os agentes, e que se ela não existisse, não estaríamos vivendo um caos em diversas nações do mundo, a incerteza.

A incerteza tem sua base nas mais diversas situações que envolvem informações imperfeitas ou desconhecidas. Aplica-se também a previsões de eventos futuros ou ao desconhecido. A incerteza surge sempre em ambientes ou situações que são parcialmente observáveis e pode ter sua origem devido à ignorância, à inércia ou mesmo à debilidade. O conceito de incerteza surge em vários campos econômicos como em seguros, na estatística, na teoria da política econômica, nas finanças e principalmente nas decisões de políticas públicas.

Para todos esses agentes existem riscos, que são fundamentalmente um estado de incerteza em que alguns resultados possíveis têm um efeito indesejado ou perda significativa como um número muito grande de mortes, nenhuma venda no comércio, defaults em empréstimos, demissões em massa e assim por diante.

O fato essencial é que “risco” significa que na maioria das situações uma quantidade suscetível de medição é factível, ou seja, o risco pode ser calculado para a grande maioria das situações. Sendo assim os bancos sabem até onde e quanto podem emprestar, as empresas sabem como e para quem vender, os governos sabem quantas pessoas entram e saem do seguro-desemprego e se sabe uma meta mínima de vacinação de uma população.

O problema que aflige a todos e está tirando o sono de todos os agentes, ativos e passivos, dentro da nossa sociedade é a impossibilidade de calcular esse risco. Como não há um risco calculado, os agentes supõem que ele é ilimitado, tornando a incerteza não mais um elemento limitador, mas o elemento principal de todas as suas decisões. Como o risco é incomensurável, os agentes se tornam naturalmente avessos ao risco, tornando todas as suas decisões como defensivas e retraindo sua participação com os outros agentes, gerando assim conflito de interesses na resolução de problemas, pois a ação de um pode ser o risco do outro e vice-versa.

Nesse contexto, a incerteza depende da exatidão e da precisão da medição das variáveis e esse é o problema que o Coronavírus impõe, a falta de variáveis realmente confiáveis sobre quantas pessoas serão efetivamente infectadas e terão um quadro grave que precisará de internação? Qual o tamanho necessário do sistema de saúde para garantir a vida dos pacientes? Quanto tempo deve ser a quarentena das pessoas até que elas possam voltar as ruas? Quando as empresas poderão voltar a abrir as portas de maneira segura? Quais empresas continuarão sendo boas pagadoras aos bancos? Quanto menor a exatidão e precisão dessas respostas, maior a incerteza e maior o seu risco.

Quando é imprecisa, a incerteza é a maior inimiga do tomador de decisões e hoje a falta de conhecimento e de variáveis para guiar os agentes colocou o mundo de joelhos. Efetivamente esse será um importante campo de pesquisa no futuro, onde o risco das decisões se entrelaça com o conflito de interesses em um mundo dinâmico.

Do ponto de vista prático o governo central, segundo a teoria keynesiana, pode mitigar alguns desses riscos se for ousado em sua ações, como garantindo uma renda mínima ou pagando o salário dos funcionários das empresas privadas por um tempo. Pode também se tornar garantidor de empréstimos privados para os bancos não limitarem suas operações com clientes em dificuldades. É capaz de criar planos de gastos em infraestrutura e desenvolvimento para contratações públicas em massa, e ampliar o número de hospitais e testagem da população.

Essa sem dúvida é a crise mais complexa dos últimos cem anos, pois não é financeira nem mercadológica, mas biológica e social.

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