A alma de Mr. Hull. Por Angela Barros Leal

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A avenida Mr. Hull,
movimentada ligação viária entre Fortaleza e Caucaia, ganhou seu nome de batismo devido a uma impensada, ou talvez propositada justiça poética, tendo sido a vida dele – Francis Reginald Hull, um inglês solto pelo mundo, que findou arribando nas costas cearenses –, das mais repletas de movimento.

Os fatos exigem fôlego: Hull foi Engenheiro; foi militar; foi responsável pela perfuração de minas de ouro na África do Sul; planejador da construção de represas na Escócia; Consultor Militar no Sul da Rússia; condecorado pelo Rei da Inglaterra e pelo Czar Nicolau II; administrador de lugares tão exóticos como a Mesopotâmia (mais exótica ainda ao ser chamada de Mesopotâmia, do que ao atender pelo nome atual de Iraque); foi responsável por obras do Canal de Suez, no Egito.

E tome-se novo fôlego: foi Vice-Cônsul na Ilhéus baiana, onde ganhou a glória de se transformar em um dos personagens de Jorge Amado (o “Coronel inglês”, no livro São Jorge dos Ilhéus); foi Vice-Cônsul também no Ceará, onde morreu, em 1951, e onde jaz sepultado sob a terra – muito embora tivesse deixado claro, em seu testamento, o desejo de ter seu corpo embrulhado na bandeira da Inglaterra, e que a seus pés fossem amarradas barras de ferro da Ceará Light, último órgão que dirigiu. Assim posto, que fosse o corpo levado sobre uma jangada, e lançado ao mar a três milhas da costa cearense. Convém dizer que não houve autorização oficial para o cumprimento desse derradeiro desejo. 

Mr. Hull residia em um sobrado, erguido sobre o acentuado declive da ladeira da Prainha, de frente para a coluna com 35m de altura, sobre a qual impera, desde 1922, a estátua de Cristo Redentor. Montara um observatório no andar superior da casa, com o qual vigiava astros e estrelas investigando os ciclos das nossas devastadoras secas.

Após seu falecimento, o sobrado foi adquirido por um empresário local. Que lá não encontrou uma página sequer dos tantos livros pertencentes ao antigo dono. Nenhuma palavra escorrera dos livros. Sequer uma única letra achada no chorume do abandono. Nem mesmo restara a sombra na parede, das tantas estantes. Nada a ser guardado, como memória, para compor um futuro e improvável Museu homenageando o inglês andarilho.

O projeto do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura levou à desapropriação da casa, que foi ao chão. “Não há documento de cultura que não seja também documento de barbárie”, já reconhecia Walter Benjamim. 

Permaneceram, entretanto, os registros datilografados da extensa biblioteca dele, como permanece o que é registrado no confiável papel. São exatas 105 páginas, tamanho ofício, listando cada livro que pertenceu a Mr. Hull. Estante por estante. Prateleira por prateleira.

Lia ele livros sobre História do Brasil e História Antiga, revisitando lugares por onde caminhara. Lia sobre viagens, revendo as que fizera. Estudava pássaros, animais e plantas que jamais encontraria no Ceará. Guardava um Dicionário de Línguas Estrangeiras, sempre pronto para o que viesse em seu caminho. Livros sobre a China, sobre Tóquio, sobre a Malásia: sabe-se lá para onde poderia ser enviado pelos reis e rainhas de seu país. 

Lia romances e poesia, Mr. Hull, ouvindo de quando em vez o badalar do sino na Igreja da Prainha, ou o som das ondas batendo abaixo do seu quintal. Lia livros escritos em Latim, uma das línguas cuja leitura dominava, além do português, do inglês, do italiano, do francês e do espanhol. Lia em português arcaico. Lia sobre Ferdinand Magellan, para nós Fernão de Magalhães. Pousava seus olhos em obras escritas, no século XVI, século XVII, no tempo oitocentista, obras únicas e preciosas.

Lia sobre a conquista da Índia e do Polo Norte, sobre Pérsia e Babilônia. Na prateleira 4 da estante C, lia sobre a descoberta do rio Amazonas, e na estante E, prateleira 3, colhia informações sobre o rio da Prata. 

E bem conhecia, Mr. Hull, os hábitos e costumes da terra em que decidira viver. Anos antes de sua morte, consignara sua biblioteca à Universidade de Cornell, uma das instituições que compõem a mítica Ivy League. A negociação teria sido intermediada, segundo consta, pelo norte-americano Herbert Fisk Johnson, mais conhecido como Mr. Johnson, aquele que levou ao mundo nossa cera de carnaúba, e que ergueu uma casa no bairro Meireles, com planta de Oscar Niemeyer, para suas férias tropicais.

Em boa hora foram os livros encaixotados e despachados rumo a Ithaca, estado de Nova Iorque, onde ainda hoje se encontram. Foi essa a derradeira viagem de Francis Reginald Hull, pois com sua biblioteca seguiu, sem maiores dúvidas, o que constituía sua alma.


Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

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