A crise das expectativas; Por Preto Zezé

COMPARTILHE A NOTÍCIA


A queda recente da
popularidade do presidente Lula costuma ser atribuída a problemas de comunicação, desgaste ou insatisfação econômica. Tudo isso pesa, mas talvez não explique o essencial. Há sinais de descompasso mais profundo entre a linguagem política forjada no ciclo da inclusão social e uma sociedade marcada por precarização, endividamento e novas aspirações.

Por décadas, o lulismo respondeu a uma demanda concreta de acesso — a consumo, universidade, crédito e direitos — e produziu mudanças reais. Mas parte do país passou a organizar suas expectativas em outro registro. Muitos que ascenderam não encontraram estabilidade: o diploma não garantiu inserção compatível, o trabalho se fragmentou e a vida passou a ser administrada entre informalidade, aplicativos, múltiplas rendas e insegurança.

Isso ajuda a entender um mal-estar que não se resume à renda ou à fadiga de governo. Há frustração de promessa. Uma parte do eleitorado já não fala do lugar clássico da exclusão, mas da sensação de bloqueio: melhorou sem consolidar, ascendeu sem estabilizar. É uma experiência ainda pouco compreendida.

Esse eleitor não é só precarizado; é também aspiracional. Pesquisas como o Sonho da Favela indicam que o horizonte popular não é só proteção, mas prosperidade, autonomia, conforto e reconhecimento. O motoboy que financia a moto, a manicure que parcela material, o entregador que troca de celular não estão apenas consumindo: afirmam, a seu modo, dignidade. Parte do campo progressista errou ao ler essa aspiração como simples captura do mercado, quando ela é, muitas vezes, linguagem de reconhecimento.

Milton Santos já apontava que os circuitos populares não estão fora, mas dentro do capitalismo. Isso ajuda a entender por que, para muitos trabalhadores, a vida é mais atravessada pelo boleto do que pelo sindicato, mais mediada pelo algoritmo do que por formas tradicionais de organização. Se antes a fábrica era espaço central de disputa, a tela do celular tornou-se, em muitos sentidos, nova porta de fábrica: ali se organizam trabalho, consumo, informação e imaginação política.

Como sugere Maurizio Lazzarato, a dívida não é apenas mecanismo financeiro, mas forma de governo da vida. O endividamento organiza condutas, medos e expectativas; não é só uma conta a pagar, mas um modo de administrar o futuro.

Isso se cruza com a ética da prosperidade, frequentemente mal lida. Mais que linguagem moral, ela funciona, para muitos autônomos e precarizados, como gramática econômica de sobrevivência, alcançando experiências que a linguagem sindical nem sempre capta. Em certos momentos, o campo progressista perdeu escuta ao falar mais para corrigir do que para compreender.

A queda nas pesquisas talvez expresse essa tensão: não só desaprovação conjuntural, mas ansiedade diante de um horizonte incerto. Em contextos de instabilidade, promessa e reconhecimento podem mobilizar tanto quanto redistribuição.

O desafio do lulismo parece menos de base e mais de imaginação política. Não se trata de deixar sua tradição social, mas de atualizá-la diante da mudança na vida popular. Parte do eleitorado já não quer só inclusão: quer perspectiva. Num país onde o endividamento organiza a sobrevivência e o medo do declínio se espalha, governar não é só redistribuir renda, mas redistribuir horizonte. Governos se desgastam também quando deixam de produzir expectativa — e expectativa segue sendo matéria-prima da política.

Preto Zezé é presidente da CUFA, Central Única das Favelas.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Atlas/Focus: Lula mantém vantagem larga no Ceará, mas avanço de Flávio reduz distância

Atlas + Focus: Cid lidera consolidado, Luizianne encosta e Wagner mantém disputa aberta entre os três primeiros

Focus/Atlas: O placar muda com Elmano 48,5% x Ciro 48% e disputa entra na reta final em claro empate técnico

Entenda a super sexta-feira: três pesquisas e três fotografias em uma disputa que continua aberta

O fundamento da crise se deu quando a política passou a pedir ao Supremo que resolvesse a política

Alerta: IA se organiza sozinha, forma uma “gangue” e ataca

Três pesquisas medem o mesmo Ceará e encontram distâncias diferentes entre Ciro e Elmano

Focus + Atlas para o Senado: Cid e Luizianne empatam na liderança; Wagner e Alcides travam disputa pela direita

Ciro e Elmano

Focus Poder/Atlas: Ciro lidera, Elmano encosta e diferença cai para 2,6 pontos

Atlas/Focus Poder, Datafolha e Quaest: três pesquisas em campo no Ceará deixam mercado político nervoso

Atlas/Bloomberg: Lula lidera 1º turno, mas entra na eleição com rejeição maior que aprovação

Data centers: Congresso começa a discutir política para setor que já movimenta mais de R$ 380 bilhões no Ceará

MAIS LIDAS DO DIA

No data was found