A esquerda acometida de "humorfobia", por Catarina Rochamonte

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Catarina Rochamonte é graduada em Filosofia pela UECE, Mestre em Filosofia pela UFRN e Doutora em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos (Ufscar).

Hegemonia, hidrofobia e “humorfobia”: a esquerda brasileira por trás das máscaras

Recentemente o documentário1964: Brasil entre armas e livros”, produzido pelo site “Brasil Paralelo”, foi submetido à censura da Cinemark (cadeia exibidora de filmes) e à intolerância de grupos da esquerda radical enfurecida que, em um dos seus frequentes surtos de hidrofobia (a doença da raiva), partiu pra cima dos estudantes que ousaram exibir a referida produção em alguma sala ou auditório de universidades públicas. Essas reações comprovam parte do que diz o documentário: o largo alcance da hegemonia da esquerda marxista, via Gramsci e Escola de Frankfurt, no ambiente cultural e acadêmico brasileiro.
Na parte final desse documentário, depois de mais ou menos uma hora e meia de filme, o foco passa a ser a exposição do marxismo cultural e da disseminação da contracultura no Brasil. A narrativa de fundo começa por nos remeter à década de 60 e aos movimentos de contestação de crenças, valores e tradição, a exemplo do movimento hippie nos Estados Unidos e o movimento de maio de 68, na França. Segundo o narrador, nesses movimentos, “jovens eram usados como massa de manobra de uma trama que não conseguiam ver.
Em seguida, Georg Lukács é citado como o filósofo a concluir que o foco da luta socialista não deveria ser a destruição do capitalismo, mas a destruição das bases da civilização ocidental: a filosofia grega, o direito romano e a religião judaico-cristã. O fundador do Partido Comunista Italiano, Antonio Gramsci, é, por sua vez, apresentado como aquele que concebeu a nova estratégia marxista de ocupação de espaços.
Explica o narrador do polêmico documentário que em seus “Cadernos do cárcere”, Gramsci “relata que a estratégia marxista deve acontecer no meio cultural, destruindo todos os valores, a moral, a religião e a família” e que, para isso “os comunistas devem ocupar espaço, exercer controle dos meios educacionais, das instituições religiosas, dos meios de comunicação.” Os depoimentos, as falas diretas corroboram a enorme presença do gramscismo por nossas terras: “Fernando Henrique Cardoso foi um dos grandes divulgadores do gramscismo no Brasil”, assevera Lucas Berlanza, jornalista, diretor do Instituto Liberal e autor do livro “guia bibliográfico da nova direita”.“O Brasil vira o país mais gramscista do mundo”, afirma o autor de “Por trás da máscara”, Flávio Morgenstern. “Itália e França, que são países em que o grascismo pegou, nunca chegaram ao nível de gramscismo brasileiro”, continua o escritor. Luiz Felipe Pondé, por sua vez, explica a estratégia:
A ideia é que você não vai causar uma revolução, mas causar uma hegemonia e nessa hegemonia você vai acordar um dia sendo comunista. Vai haver uma normalização de uma visão de mundo e essa normalização vai causar aquilo em que o comunismo teria fracassado no seu primeiro momento através da luta armada”
Pois bem, a estratégia hegemônica atual da esquerda à qual tentamos resistir é resultado de uma série de modificações e adaptações das teses basilares do marxismo. Deixando praticamente de lado o economicismo e a ideia de que o Estado deve ser tomado à força pela revolução violenta, o foco passa a ser a cultura, ou melhor, a destruição da cultura pela contracultura e a consequente destruição da visão de mundo e dos valores que sustentam as democracias liberais do ocidente. A esquerda aposta agora não apenas no discurso trabalhista, mas principalmente no discurso  identitário e progressista, articulando as forças sociais cujos conflitos são potencializados, instrumentalizados, unificados e direcionados para o seu projeto de poder.
Todo projeto que busca hegemonia é, por natureza, intolerante ou seletivamente tolerante, o que equivale a dizer que aqueles que o defendem  agem e falam de maneira hipócrita e sem compromisso com a verdade e a justiça. Já dissemos em artigo anterior que a seletividade da esquerda na questão da tolerância não é fortuita, mas ponto de doutrina. O marxista Herbert Marcuse, luminar da Escola de Frankfurt muito festejado nas faculdades de filosofia, estabeleceu tal ponto doutrinário de forma muito clara: “Toda tolerância para com a esquerda, nenhuma tolerância para com a direita”.
É isso que explica o acesso de raiva entre professores e estudantes  universitários quando se tenta exibir O jardim das aflições ou 1964-Brasil entre armas e livros (ambos documentários de direita) ou ainda quando a ex-feminista e ativista pró-vida Sara Winter se atreve a falar contra o aborto   nas faculdades públicas, que mais parecem as últimas trincheiras ideológicas de pessoas fanatizadas e raivosas do que o espaço para liberdade de pensamento, expressão e opinião que deveriam ser.
Mas a esquerda brasileira não sofre apenas da doença da raiva; ela também padece de “humorfobia”. Ao tomar conhecimento de que tinha sido condenado à pena de seis meses de prisão por reagir com o humor à tentativa da deputada Maria do Rosário (PT) de censurá-lo, o humorista Danilo Gentile reagiu com a seguinte declaração:Eu acho que a Maria do Rosário e todas as pessoas que apoiam que um comediante seja preso por questionar e fazer piada são humorfóbicos.”
Essa “humorfobia” e esse melindre, como já sabemos, é seletivo: se piadas insultuosas ou qualquer tipo de ataque forem dirigidos a alguém de fora do cercado ideológico da esquerda, aí tudo bem, vale tudo. Vejam, por exemplo, o que a esquerda fez (e ainda faz) de piada, deboche e achincalhe com a titular do Ministério da Mulher, Damares Alves. Muito recentemente, o humorista de esquerda Gregório Duvivier proferiu insultos tão vis ao ministro da Justiça, Sergio Moro, que fazem Danilo Gentili parecer um rapaz tímido.
A sentença de que Danilo foi alvo deverá ser revista e tem tudo para ser revertida. Mandar prender um humorista por excessos de linguagem é um despropósito. Além disso – como bem salientou Gentile em entrevista no programa Pânico, da Jovem Pan – a deputada usou a máquina estatal para processá-lo, conseguiu uma condenação criminal e ainda comemorou. Trata-se, portanto, de intimidação por parte do Estado contra um indivíduo (um humorista!) que ofendeu um de seus agentes. Aceitar isso é aceitar que se plantem as sementes de um Estado totalitário.
 
 

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