No dia 16 de novembro de 1940, um rapazote franzino embarcou no navio Duque de Caxias em direção ao Rio de Janeiro. Por aparentar uns 12 ou 13 anos, portanto menor de idade, precisou enfrentar uma série de perguntas por parte do Comandante. Foram respondidas a contento, ganhando assim autorização para embarcar. Seu nome era Heitor Silva, era órfão – ainda ostentava o fumo indicativo do luto no paletó amarrotado – não tinha família no Ceará e pretendia buscar trabalho na Capital Federal. Foi encaminhado para a terceira classe do navio.
Antes que o Duque de Caxias deixasse a costa cearense, o enredo da bem contada história iria de água abaixo. Tarde da noite, um dos passageiros, o cearense Pedro Sidrim, foi acionado através de mensagem enviada pelo rádio para um esclarecimento urgente. Por volta da meia noite, ele e o Capitão fizeram uma busca pelo jovem. De acordo com o Diário da Noite fluminense, o encontraram dormindo no tombadilho, sob as estrelas, ao abrigo de uma baleeira.
Fazia muito calor no porão – tinha sido a resposta do rapazote sonolento.
Sem maiores dificuldades, o dentista identificou no rosto dele a jovem Hellyett Siqueira Walker, neta do ex-Prefeito Adolfo Siqueira, filha de seus amigos Cleonice e Raul Walker, residentes no número 119 da Rua Pacajus. Foi transferida de pronto para a primeira classe, fazendo companhia a duas jovens que se assustaram ao despertar com a entrada de um rapaz no camarote. Ela própria tratou de esclarecer os fatos.
A história da menina fez crescer os olhos dos que a ouviram. Desde Jovita Feitosa, aos tempos da Guerra do Paraguai, o Ceará não conhecera nenhum caso semelhante de troca de identidade visando um fim louvável. Em nenhum momento Hellyett negou-se a assumir sua verdadeira identidade, nem se omitiu de contar os detalhes aos muitos jornalistas que iria encontrar nas escalas da viagem ou na chegada ao Rio, interessados em divulgar sua aventura.
O Diário da Noite a descreve: “Uma menina esquisita e absolutamente fora do comum”, o corpo “um motor de explosão, um feixe de nervos, um poço de iniciativas e de decisões rápidas, para não dizer fulminantes”, dona de uma “inteligência vivíssima e brilhante”. Ganhou dos jornais o simpático apelido de Menina Fujona, e uma notoriedade conveniente a ser explorada pelo governo de Getúlio Vargas na Campanha Nacional de Aviação, anterior ao ingresso do Brasil naquela que viria a ser a Segunda Guerra Mundial.
Interessado em fazer crescer o número de pilotos, Hellyett se mostrou imperdível peça de propaganda. O próprio Getúlio telefonou aos pais dela solicitando a aprovação para que ela fosse inscrita no Aeroclube do Brasil. Cortesia da casa, segurança garantida. Evidente que não houve recusa. Hellyett ia ser aviadora, realizando seu sonho de criança.
Depois o Ceará e o Brasil souberam, em minúcias, a sequência de passos planejados em Fortaleza para conseguir chegar aonde chegou. Tinha ido a cabeleireiros da cidade, pedindo um corte a la homme, ou à la garçonne, como se dizia. Como nada ouvira além de negativas, ela própria tratara de resolver o problema, no casebre de uma idosa conhecida da sua família.
Enfiara em um saco (ou uma maleta de mão, as versões variam) poucos objetos pessoais, um macacão, um terno de brim, um de casimira, pertencente ao irmão, a quem pertencia também o par de sapatos que ia calçar. Saíra de casa “elegantemente trajada”, nas palavras surpresas da mãe em entrevista ao Correio do Ceará, até mesmo “com um pouco de rouge nas faces”. Já de cabelos curtos, trocara de roupa na choupana da dita idosa, na Rua do Seminário, e de lá seguira para o embarque.
Ao tomar conhecimento do desespero dos pais de Hellyett, a idosa se viu forçada a revelar o ardil o que facilitou o contato com o navio, a descoberta de um nome masculino com as mesmas iniciais dela, e o espanto do dentista e do Comandante ao encontrá-la sob as estrelas.
Hellyett completaria o curso, se juntaria aos colegas para receber o brevê de aviadora civil, e em outubro de 1941 ganhou honroso segundo lugar na competição feminina Circuito Cruzeiro do Sul, promovida na Semana da Asa, competindo com experientes aviadoras.
Em dezembro de 1941, um ano depois da fuga por navio, retornaria ao Ceará em possante hidroavião da Condor, amerissando na Barra do Ceará para ser recebida “por uma enorme multidão”, como registrou o jornal Unitário. Depois disso, sei que Hellyett permaneceu no Rio de Janeiro, casou-se, teve filhos. Um deles viria também a ser aviador.
Nada dessa história eu conhecia, o que me deixa um tanto envergonhada, pelo desconhecimento sobre assuntos que deveriam ser públicos e notórios. Para amenizar o sentimento de autorrecriminação, me consolo pensando que existe por aí muita gente que também não sabia sobre as aventuras de Hellyett, e de como se pode ter o que se quer – desde que exista a vontade.
Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.







