Preciso ir a um velório de muitas e justas lágrimas. Independente do desejo de ir, assim exigem os artigos, parágrafos e incisos do Contrato Social que assinamos sem ler, no minuto do nascimento. Não me sinto confortável em meio à tristeza das roupas e dos óculos escuros, dos lenços sacados de bolsos e bolsas, do cheiro forte das flores e das velas. Minha mente divaga.
Certamente existe uma Ciência da Lacrimologia – imagino eu, apertada entre duas chorosas senhoras em um dos bancos do espaço social onde se dá a cerimônia. Há com certeza um sub-ramo do estudo biológico, voltado a analisar, na teoria e na prática, o teor químico da lágrima. Me parece impossível aceitar que uma lágrima de alegria possua os mesmos elementos padronizados daquela que brota da tristeza.
A Química ensina sobre os três tipos de lágrima: a lágrima basal, a que umedece nossos olhos a cada vez que abrimos e fechamos as pálpebras; a lágrima reflexa, a que vem em nosso socorro nos momentos pontuais de irritação ocular causada pelo vento, por fumaça, poeira ou condições similares; e a lágrima emocional, que vejo escorrer no rosto dos presentes ao velório, quase sempre a válvula de escape de uma dor como a que se acumula em mim e à minha volta.
Quase sempre – é a expressão que posso usar. Não digo a palavra sempre, pois pressinto um outro subgrupo na categoria das emoções, e me atrevo a meditar sobre isso enquanto acompanho a pregação do celebrante.
Na Ciência da Lacrimologia deve ser possível identificar, por exemplo, a lágrima surgida do sentimento de remorso. Sob um microscópio, analisada a fundo como os investigadores forenses analisam o DNA, sua essência genérica de água, muco e lipídios é provavelmente diversa da lágrima provocada por outros sentimentos. O arrependimento pelo que não foi dito ou pelo que não foi feito –, ou ao contrário, pelo que foi feito e dito em excessos –, com certeza imprime uma dose forte de amargor às gotas fadadas a escorrer pela face.
Imagino que na lágrima da fúria predomine a acidez. Os equipamentos científicos devem mostrar que o choro causado pelo sentimento de ódio se assemelha, em sua composição, ao sumo de limões maduros, com o poder de abrir no rosto os sulcos indicativos de sua passagem.
A lágrima de alegria, ao contrário, é adocicada. Ao ser exposta para análise, os elementos que a compõem correm o risco de atrair abelhas, insetos polinizadores. Faz-se notável pelo efeito contagiante que costuma disseminar em seu entorno.
No caso da dor física, imposta por ossos partidos, carne lacerada, tendões rompidos, é bem possível que a lágrima contenha partículas vítreas e sanguíneas, extraídas ao longo de seu percurso pelos canais lacrimais.
A cerimônia finda. O caixão ergue-se sobre sua base e desliza por mecanismos invisíveis para uma abertura ao fundo da parede, e eu imagino a composição da lágrima da saudade: é salgada como os mares, as marés, os oceanos do mais puro sal, silenciando a voz de quem ansiava em tudo dizer, em um único instante, as sofridas palavras da despedida.
Não sinto mais necessidade de pesquisas científicas, impessoais. Provo eu mesma da química presente na lágrima da saudade: é ardida, cortante, afiada a ponto de ferir a nossa língua e de deixar o nosso peito em carne viva.
Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.







