A velha fenda do Brasil, por Emília Buarque

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Emília Buarque, presidente do Lide Ceará | Foto: Reprodução Facebook

Ainda não chegamos ao fundo do poço e o desequilíbrio tende a se agravar. Ao invés de ajuda mútua, espírito de nacionalidade, vemos que disputas veladas e uma segregação histórica tendem a continuar.

Com pouca compreensão mundial de que em meio à pandemia da Covid-19, em nenhuma esfera existe o dono da razão, assim também seguimos no nosso Brasil.

A despeito das diversas disputas tensionadas, nas quais a sociedade insiste por admitir somente duas posições – saúde x economia, interdição horizontal x vertical e tantas outras – surge mais uma nova velha fenda que divide o Brasil.

Talvez tenhamos aqui um resgate do Brasil colônia ou um mapa parcial da política café com leite, para tentar explicar sociologicamente o que representa este projeto de lei aprovado ontem pela Câmara dos Deputados. O referido projeto trata de uma ajuda financeira ou perdão de dívidas da União a estados, Distrito Federal e municípios, como uma forma de compensar a queda de arrecadação do ICMS e ISS de 2020 em relação à 2019, obrigando o Governo Federal a assumir uma conta da ordem de R$ 105 bilhões até R$ 222 bilhões, mas que a Câmara alega ser “somente” de R$ 90 bilhões, e que, no futuro, fatalmente será rateada também com os estados e municípios mais pobres da nação.

No âmbito da economia, o momento deve ser de distribuição de apoio, sim, dentro do princípio de um pacto federativo; de injeção de liquidez, fluidez de recursos para baixa renda e mitigação do risco de crédito para viabilizar empréstimo para empresas, como prega o notável economista Marcos Lisboa.

Esta nos parece ser a operação e a boa intenção do Ministério da Economia. No entanto, percebe-se através desta medida, que o corporativismo falou mais alto na Câmara, que por sua vez perde oportunidade de desobstruir de uma vez por todas, os impasses na produtividade, geração de empregos e segurança jurídica pela ausência das reformas, ressaltando-se aqui a fiscal. A lógica do estado que novamente serve perigosamente a si, precisa ser afastada.

Portanto, a notória pressa em aprovar o apoio emergencial aos que na sua maioria são mais abastados e não adotaram uma política de ajustes necessária, também não é compatível com o histórico de lentidão e esquecimento das demais unidades da federação, curiosamente mais desassistidas, mas que, em grande parte, levam notas A e B no equilíbrio fiscal.

Sendo tempo de mudanças, espera-se lucidez de senadores e do próprio Presidente da República em não ceder às referidas articulações.

Não somente valorizar hábitos de higiene é o que essa crise deve nos deixar como ensinamentos. Respeito e dignidade em nome do pensamento coletivo são lições igualmente necessárias.

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