Curiosidades cearenses: Maguari, o clube que virou subestação; Por Sérgio Jaborandy

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Sede do prédio que, mais tarde, virou a sede do Maguari; O automóvel é um modelo Chevrolet Fleetmaster/Fleetline de 1947–48

Por Sérgio Jaborandy
Dizem que o primeiro “mico” a gente nunca esquece. Pois eu jamais esqueci o meu.

Não porque eu seja dono de uma memória privilegiada, mas porque essa história aconteceu num lugar muito especial da Fortaleza de outros tempos: o velho Maguari Clube. Era 1965. Eu tinha apenas quatro anos; meu irmão Paulo, cinco. Ambos estudávamos na pequena escolinha que funcionava na sede da Rua Barão do Rio Branco — um detalhe que poucos fortalezenses ainda lembram.

Nossa professora resolveu montar uma encenação da Arca de Noé. Cada criança representaria um animal, devidamente fantasiado. Minha mãe, sempre criativa e, sobretudo, econômica, adorou a ideia. Encontrou uma solução tão engenhosa quanto inesquecível: mandou a costureira confeccionar uma fantasia de foca que, na prática, era um grande saco preto, sem mangas nem pernas, com apenas uma abertura para a cabeça.

Como se aquilo já não bastasse, surgiu o toque final da genialidade materna: uma touca preta coroada por um balão colorido, preso no alto da cabeça, para simbolizar que eu era… uma foca adestrada.

Foi meu primeiro grande “mico” diante do público.

Meu irmão, felizmente para ele, escapou ileso daquela ousadia. Os recursos da família eram regrados, e uma única fantasia já consumia boa parte do orçamento destinado a “coisas supérfluas”.

Passadas mais de seis décadas, continuo lembrando da cena com um sorriso.

Mas, afinal, o que foi o Maguari?

Fundado em 1924, o Maguary Sport Club nasceu como uma agremiação voltada ao futebol. Instalado inicialmente no Alagadiço — atual bairro São Gerardo —, conquistou quatro Campeonatos Cearenses e terminou outras sete vezes como vice-campeão da Primeira Divisão. Mais tarde, sua segunda sede funcionou na então Avenida Visconde do Cauípe, hoje Avenida da Universidade.

Em 1946, foi inaugurada a elegante sede social da Rua Barão do Rio Branco, nº 2955. Com o encerramento das atividades do departamento de futebol, o clube passou a investir intensamente na convivência social.

O Maguari ocupava um espaço singular na vida fortalezense. Não era um clube aristocrático como o Ideal, o Náutico ou o Country Club, mas também não possuía o perfil dos clubes suburbanos. Sua identidade estava na classe média emergente, nos estudantes universitários e, sobretudo, nos jovens vindos do interior que viviam em repúblicas ou nas residências estudantis da capital.

O edifício foi projetado pelo arquiteto Sílvio Jaguaribe Ekman, um dos grandes nomes da arquitetura cearense do século XX, responsável também pelo projeto do Ideal Clube, hoje tombado como patrimônio histórico de Fortaleza.

Nas décadas de 1950 e 1960, período conhecido como os Anos Dourados, o Maguari tornou-se um dos espaços mais democráticos e descontraídos da juventude fortalezense. Em uma sociedade marcada por rígidos códigos de comportamento, especialmente nas relações entre rapazes e moças, suas tertúlias, matinês, vesperais e bailes conquistaram fama por oferecer um ambiente mais leve e menos formal.

Era o tempo em que a cidade vivia o entusiasmo desenvolvimentista do governo Juscelino Kubitschek. O otimismo parecia contagiar tudo. O auge dessa fase ocorreu quando Emília Correia Lima, eleita Miss Maguari, conquistou também os títulos de Miss Ceará e Miss Brasil, coroando o prestígio do chamado “Clube dos Príncipes”.

Mas a História, quase sempre, muda de rumo sem pedir licença.

Enquanto o mundo acompanhava a Guerra Fria, a Revolução Cubana e, mais tarde, a Guerra do Vietnã, o Brasil mergulhava no regime militar instaurado em 1964. Mesmo sob o peso da censura e da repressão política, a juventude encontrava nos bailes do Maguari um espaço para dançar, sonhar e esquecer, ainda que por algumas horas, as tensões daquele tempo.

Era a época da Jovem Guarda. Jerry Adriani, Wanderley Cardoso, Wanderléa e tantos outros embalavam as tertúlias, as matinês e os bailes comemorativos que fizeram parte da memória afetiva de uma geração inteira.

O tempo, entretanto, também passou para o Maguari.

Em 1976, a antiga Coelce adquiriu o terreno para instalar uma subestação de energia elétrica. O destino do clube mudou completamente. Felizmente, o edifício principal sobreviveu às transformações urbanas e permanece protegido pelo tombamento municipal, preservando parte da memória de um lugar onde tantas histórias foram vividas.

Sempre que passo diante daquele prédio, não vejo apenas uma subestação.

Vejo um menino de quatro anos vestido de foca, equilibrando um balão na cabeça, arrancando sorrisos da plateia sem imaginar que, décadas depois, aquela fantasia acabaria se tornando uma das lembranças mais queridas de sua infância.

E você? Sabia que, muito antes de se tornar uma subestação de energia, aquele endereço abrigou um dos clubes mais queridos da Fortaleza do século passado?

Sérgio Jaborandy é Engenheiro, foi aluno do Colégio Militar de Fortaleza e Oficial da Marinha Mercante.

 

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