Editorial Focus Poder: Os atos da liderança ditam para a sociedade o jogo a ser jogado

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Pintura de Jean-Baptiste Debret: Empregado do governo saindo a passeio. Gravura colorida, 1835. Museu Castro Maya.

Editorial Focus Poder

É um clichê afirmar que o exemplo arrasta, mas nunca foi tão necessário lembrar dessa verdade, especialmente em tempos nos quais o relativismo ético e moral amplia-se. Tanto no setor privado quanto (principalmente) no público, a conduta dos líderes reverbera, molda comportamentos e sinaliza para todos qual a regra do jogo a ser jogado. O impacto das palavras e ações dos homens públicos é ainda mais profundo e perigoso.

A palavra e a ação como comandos
Quando um gestor público declara abertamente que “não está nem aí” para as críticas sobre os direitos humanos nas ações policiais, está comunicando algo muito além de sua opinião. Essa frase, aparentemente simples, pode ser interpretada como um aval implícito à brutalidade e ao desrespeito às normas. Na ponta do sistema, o guardinha da esquina vai entender que o uso excessivo da força não é apenas tolerado, mas desejado. É exatamente isso que vimos recentemente em São Paulo: excessos em operações policiais que deixaram um rastro de violência e questionamentos.

Max Weber, ao tratar da ética da responsabilidade, lembra que o líder não pode ignorar as consequências previsíveis de suas palavras e decisões. “A política é feita com a cabeça, não com outras partes do corpo nem com a alma”, escreveu Weber. Assim, não basta que o dirigente acredite estar em nome de um bem maior; ele deve considerar os efeitos de suas ações e discursos no tecido social.

O exemplo no patrimonialismo e no nepotismo
Outro aspecto do mau exemplo é a normalização do patrimonialismo, uma prática que perpetua a confusão entre o público e o privado. Quando um político utiliza sua posição para nomear (ou bancar politicamente) familiares em cargos estratégicas, está reforçando a ideia de que o Estado é uma extensão de seus interesses pessoais. Não é apenas uma prática condenável em si, mas um modelo que se espalha por todas as esferas da sociedade, reforçando uma cultura política arcaica, atrasada e, evidentemente, com força para manter o status quo econômico e social terrivelmente atrasado que persiste no Brasil.

Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder , identifica essa prática como herança direta do patrimonialismo ibérico, que se arraigou no Brasil e nunca foi superado ou rompido. Para ele, “a privatização do público é a negação do espírito republicano”. O nepotismo, nesse sentido, não é apenas um ato imoral; é um ataque direto ao princípio de igualdade e meritocracia, pilares de qualquer democracia moderna.

A mudança necessária
O Brasil permanece prisioneiro da cultura política que privilegia o atraso em vez do progresso. Uma grande transformação que nunca foi feita é justamente o rompimento com esse modelo arcaico, que normaliza práticas como violência institucional e nepotismo. Sem líderes que demonstram exemplaridade em suas ações, o país continuará reproduzindo um ciclo de desconfiança nas instituições e descrença na política.

O sociólogo francês Pierre Bourdieu, ao discutir o conceito de habitus, argumenta que a reprodução social ocorre por meio das práticas cotidianas, moldadas por estruturas simbólicas e materiais. No Brasil, o habitus político ainda é pautado pelo personalismo e pela ausência de compromisso com a coletividade. A postura exemplar, nesse contexto, é uma ferramenta poderosa para quebrar ou reforçar essas estruturas.

O autoengano
Na ciência política, a liderança é extremamente reconhecida como um fator determinante na construção da legitimidade política e na consolidação das instituições democráticas. Assim, erra grotescamente o político que imagina que práticas atrasadas, como nepotismo, corrupção velada e outras condutas questionáveis, podem garantir sua permanência no poder. A percepção pública é uma aparência cumulativa e inexorável, e a vigilância da sociedade, mesmo que silenciosa, atua como um juiz implacável.

A socióloga Hannah Arendt enfatiza em A Condição Humana que o poder político não se sustenta na força ou na manipulação, mas na capacidade de inspirar confiança e mobilizar o consenso. O líder que aposta em práticas que corroem o tecido institucional engana a si mesmo: tais atos podem proporcionar ganhos imediatos, mas comprometem a base simbólica e material de sua autoridade. A sociedade, mesmo quando aparentemente complacente, absorve e reage a esses desvios, muitas vezes de forma avassaladora, como uma avalanche de deslegitimação pública.

Além disso, a história oferece um crivo severo. O líder que opta por atalhos éticos, buscando consolidar redes clientelistas ou proteger interesses particulares, não apenas sabota o progresso institucional do estado ou do país, mas também perde a oportunidade de inscrever seu nome de forma positiva na memória coletiva. Como argumenta Raymundo Faoro, a prática patrimonialista subverte o espírito republicano e perpetua a percepção de que o espaço público é uma extensão dos interesses privados. Tal visão não apenas arruína a trajetória individual de quem a pratica, mas reforça ciclos de atraso e desconfiança institucional que afetam as gerações.

A curto prazo, redes de influência e vantagens contextuais podem até aparentar sucesso. No entanto, sob a ótica histórica, essas práticas condenam o líder à mediocridade, privando-o do status de estadista. Políticos excessivamente pragmáticos são esquecidos ou lembrados com desprezo. Os que possuem visão de longo prazo e entendem que o patrimonialismo é a praga rsponsável pelo nosso atraso, permanecem como referências positivas e exemplos para as gerações futuras.

Em suma, o mau exemplo de hoje é o legado de vergonha de amanhã. O verdadeiro poder político, segundo Max Weber, reside na habilidade de trabalhar pela eternidade, contribuindo para a formação de estruturas sólidas e valores que transcendem o presente. O líder que despreza essa responsabilidade não apenas fracassa em seu papel imediatamente, mas também compromete seu lugar na História.

Conclusão
A persistência de nosso atraso exige líderes conscientes de que suas palavras e ações possuem força normativa. Governar é, em última instância, uma prática pedagógica: o bom dirigente reverbera. Ensina o cidadão como deve se comportar, tanto no que faz quanto no que deixa de fazer.

Um país que quer mudar precisa de exemplos de responsabilidade, ética e compromisso com o bem comum. Como disse o educador Paulo Freire, “o exemplo não é uma forma de ensinar; é a única forma”.

Cabe, portanto, a cada homem público refletir: que tipo de exemplo quero deixar? No silêncio da omissão ou na contundência das ações, a mensagem será passada.

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