Estamos ocupados em dizer: fique em casa, por Durval Aires Filho

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Durval Aires Filho é advogado, professor, jurista e magistrado brasileiro, membro da Academia Cearense de Letras.

Envelopado em um velho pijama emprestado da mulher, abro a janela. No finzinho da tarde. Vejo um carro, sem pressa. Na contramão da rua vazia. Passa frente às casas. Moradas quase lacradas. Motorista perdido. Como um carteiro sem área. Procurando endereço. Do lado de dentro dos lares, destinatários confinados o vêm deslizando. Curiosos. Ocupam os interstícios das portas. Ele percebe que ao olhar, ao mesmo tempo, é olhado. Certifica mais uma vez que não há ninguém andando a qualquer destino. Não encontra outra máquina semelhante a sua que pudesse sequer trocar um som pelo mugido da buzina. Lá na frente para. As lanternas traseiras rutilam. Permitem ver a luz vermelha. Na noite que se avizinha. Ensaia entrar à esquerda. Prefere seguir a direita. Vacila. Talvez arrependido, some da minha vista. Retorna a “toca” de onde saiu. Lições de ratos pareceram importantes. Mas, como ele, nós não estamos fugindo de nenhum predador? Ou estamos sendo caçado por vírus letais?

Aqui dentro da casa, nada acontece. A “desnovidade” nos dias se repete. A agitação não vem como se espera dos dias normais. Mas os dias não são anormais. O que nos prende é o receio. O medo faz o tempo diferente e o prisioneiro impreciso.  Têm sido assim o nosso cotidiano assintomático. Direto ao ponto: a solidão. Quarentena para um sessentão.  Nem penso em rompê-la. Tenho pavor a doenças.  Lavo todas as horas as minhas mãos. Tenho uma necessidade enorme de leva-las ao nariz. Preciso bloquear esse refrego. Parece uma obsessão esse negócio de asseio. Mas não é não. Coloquei na cabeça que a limpeza afasta o inimigo invisível. E repele mesmo. Por isso, faço sindicância sobre todos os produtos alimentícios. Antes de ingressarem na cozinha. Seja qualquer coisa pedida pelo aplicativo. Abro a porta metálica cor de purpurina. O motociclista solícito, entrega à mercadoria a meia distancia. Ele diz a mim que a sua senhora, a minha esposa, há tempo pagou pelo cartão.  Retiro o produto das embalagens e estas descarto no mesmo instante. Tenho que lavar os alimentos frescos com água sanitária porque outras mãos os seguraram. Realizo diferentes auditorias. Roupas que andaram fora do círculo residencial estão proibidas de entrar.  Vão parar na cesta dos sujos para ser novamente lavadas. Os chinelos e os calçados que, por algum motivo, viajaram sob nossos pés, são reprovados.  Ficam fora do alcance interno. Não servem para pisar sobre os vãos da casa vigiada.  Andaram por outros pisos, decerto pelos chãos contaminados.

Noutra parte do dia, recomendo as dois filhos pós-adolescentes a continuarem a receber aulas pelos aplicativos de multicomunicação. Ajudo minha mulher. Ela cozinha. Conversamos na hora do preparo. E, “quarentanando”, me meto a limpeza, a lavar louças. Após as refeições. Faço café. Depois, os livros. Aliás, quem gosta de leitura, existe tempo e cama. Comecei a devorar vários títulos.  Parecem férias, mas não são. Tem outra pegada. Contradição. É um descanso para quem teve de sobra muito repouso. Não temos a alegria, mas sobra o humor para lidar com a reclusa situação. “Ninguém vai a lugar nenhum, está me ouvindo?” Falo para o gato Yelow, uma das nossas sentinelas amarelas. “Nós não planejamos isso: zelar em torno desses limites de nós mesmos, estão ligados?”. Ele emite um “miado”. Ponho a ração. “Nós não imaginamos esse círculo encerrando nossas fronteiras domésticas”, aviso a Mary Gene, outro bichano. Ela parte com os pelos eriçados, afastando, no seu entendimento felino, o que pode acontece de ruim.

Presságio ou não, a minha mulher passa e sorri com minha conversa adestrada, quase inútil, com os outros queridos mamíferos da casa. Um amigo cordial de horas de telefone fala pelo celular.   Presenteia-me com um vinho do Alentejo. Tinha atravessado a Semana Santa. A Páscoa solitária. Por texto e áudio, avisa por duas mensagens pelo “whatsApp”, a sua pretensão de passar aqui.  Deixar o presente na portaria. Talvez quisesse,  como eu,  um encontro. Breve que fosse rápida, uma visitinha. Coisa tão rotineira. Básica e humana. Tomar um café.  Ou uns tragos. Colocar a conversa afiada na ponta do dia. Compartilhar algum problema. Pessoal e sério. Falar da sorte de outro amigo. Sinto falta de algum dialogo honesto. Algo especulativo.  Também exagerado. Conversa de barbeiro. Tipo assim: “doutor não gosto de conversa, não, mas como é seu amigo, estão dizendo por aí que o Seu Roberto se divorciou, ao descobrir que a sua mulher mantinha um caso com o seu gerente de negócios e, o pior de tudo, dizem mais, que o homem está falido”.  Coitado do Bebeto, eu diria murmurando. Não há incompetência mais trágica do que um capitalista sem capital. Devendo ao Estado, uma montanha de impostos, o presente de casamento da mulher, a Deus e o mundo. Motivaria comentários que juntaria as duas situações, da infidelidade e da quebra: foi infeliz no amor e também nos negócios. No modelo do dito popular: “além da queda o coice”.

Lembro-me do papo sobre a economia: o dólar subindo demais. Da sucessão política. Ano antes da conclusão do mandato do governador, do prefeito, ou do presidente, começam as especulações sobre candidaturas. As mesmas promessas e o novo nunca vêm.  Ressinto do pouco assunto sobre futebol. Somente o necessário. Não sou torcedor de nenhum time. Mas, podem acreditar, adoro resultados. É difícil ir ao estádio. Agora, com essa pandemia, mesmo que ela passe, vai ser quase impossível. Talvez esses assuntos a respeito de campeonatos sejam apenas para provar que eu sou igual a todo mundo. Pelo menos estou com a grande maioria. Mas toda regra tem exceção. Um vizinho meu, detesta futebol. Médico, filho de médico. Depressivo. Já tentou suicídio algumas vezes. Felizmente tem superado essa tendência. Depois que passou a criar um enorme pastor alemão. É interessante sua preocupação com o cachorro. Lá pelas 12 horas noturnas, começa a afagar o cão que late seco e bem alto, amedrontando pequenos felinos, aves e vizinhos ocultos, como se fosse uma perigosa maquina de moer ossos, quando na verdade o ladrido forte é uma espécie de resposta-retribuição ao amor de seu querido dono. Vale o “som-reboliço” como um sinal.  Chega, então, a hora de verificar se as luzes externas ainda estão acessas e se as portas estão mesmo fechadas. Estando tudo em ordem, subo. Tranquilamente. Minha mulher pergunta o que houve. Respondo: “nada, não vamos ter surpresas, nem espantos. Meu dileto suicida se recolheu!”.

Agora fiquei pensando: será mesmo que o tal vizinho não possui nenhuma preferencia em jogos? . Desconfio dos eletrônicos. Tem um ponto extraordinário em torno do futebol e, um pouco, da política. Agrega. Fala a mesma linguagem. Põe todos em comum. Une muita gente. Longe de qualquer hierarquia. Desde que todos estejam na mesma camisa.  Pensando bem, acho que eu não gostaria de ser rotulado como alienado das coisas triviais, como o meu vizinho “techno”. E nem sei se são triviais assim. Já separei brigas, levei até safanões, sem ter nada a ver com o peixe. Presenciei bufetes travados entre duvidosos vilões e heróis, como nos filmes de western, envolvendo gente fina, bem posicionada, motivados pelas discussões que procuravam motivos, a propósito de árbitros e goleiros supostamente comprados na concorrida disputa do campeonato nacional. Aí, me lembrei de uma musiquinha gravada pelos “Paralamas do Sucesso”, no cola de Jackson do Padeiro, que cantava sobre impossibilidade do placar ser 1×1.

Retorno ao quarto. A mulher deitada sobre a cama, mas em rede social, diz que vai descer mais um pouco. Avisa sobre uma macarronada. Já separou todos os ingredientes e que tem um vinho barato na porta da geladeira. Sorri e diz que os “grad vin de Bordeaux” são para impressionar meus amigos, tipo aquele que me presenteou uma garrafa de Pêra Manca. E pergunta se há um plano para incendiar a casa, devido tanto álcool-gel próximo ao fogão e a churrasqueira.

Corrijo rapidamente o descuido advertido, faço algum servicinho e abro o computador. No facebook, muitas mensagens. A realidade ampliada e próxima bate forte.  Vídeo compartilhado. Desabafo desesperado de um pai que acabara de perder um ente muito querido: “vejo gente falando que não pode perder o trabalho e eu digo que preferia ficar desempregado a vida toda do que perder meu filho. Fiquem em casa. Não é um gripe a toa. Coisas materiais a gente vai ver depois. Meu filho não verei nunca mais!”.

Na televisão aberta acaba um debate com a mesma recomendação da OMS: “fiquem em casa”. Volto à janela. Fecho as venezianas. Essas nuvens escuras se formam e busca precipitação. Vem água por aí mais tarde. Encerrando esse abril despedaçado em chuvas. Espio, mais uma vez, o vazio das ruas. Estranho o bairro. Nunca pensei que observaria um cenário tão silenciosamente mudo. E nós aqui, reservados, segurando a vida, a saúde, com  o isolamento, como um dos remédios contra o vírus.  Eficaz, seguro, natural, pra não dizer barato e sem causar nenhum transtorno comparado ao que pode acontecer. Em meio à pandemia, já pensaram em disputar um leito para internação? Preventivamente o isolamento é santo, não há outro remédio. Enquanto os homens da ciência procuram descobrir uma vacina. Ou os invasores comecem a bater em retirada.

A proibição de estar com parentes próximos, vizinhos e conhecidos, sair à rua, frequentar lugares públicos, existe por que quebra a correia do contágio. Aliás, a transmissão do vírus passa pelas mãos, de palma em palma. Também pelo encontro face a face. Então, é preciso esquecer os cumprimentos. Estar longe das pessoas. É necessário o distanciamento social.  Por óbvio, a proximidade pode ocasionar contaminação por vias respiratórias. É preciso o uso de máscaras. Não paro de lembrar-se dessas coisas, há um mês aqui dentro desse endereço. E ainda estamos ocupados em dizer: “fiquem em casa”. É perigoso o rompimento da solidão. Essa quebra produzirá um preço alto demais.  Não só passando ou recebendo a doença, mas o provável internamento de nós mesmos, que, entre tantos riscos certos e ignorados, tem levado a morte.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Atlas/Focus: dobradinha Cid-Luizianne soma 59,6% dos votos válidos para o Senado

Atlas/Focus: Elmano 49,9% x Ciro 49,6% dos votos válidos; Ceará chega à urna separado por um fio

Focus/Atlas: Aprovação de Elmano vira a favor; Avaliação do governo melhora, mas continua dividida

Atlas/Focus: Cid e Luizianne nas duas primeiras posições no Senado; dupla abre vantagem sobre Wagner e Alcides

Atlas/Focus: Elmano avança entre os mais velhos e nas faixas de maior renda; Ciro concentra vantagem entre jovens

Atlas/Focus a seis dias da eleição: Elmano 49% x Ciro 47,6%

Coligação de Ciro Gomes tenta barrar pesquisa Atlas/Focus, mas TRE rejeita e impede censura

Atlasintel: A polícia e a confiança que ainda resiste

Atlas/Focus: Lula mantém vantagem larga no Ceará, mas avanço de Flávio reduz distância

Atlas + Focus: Cid lidera consolidado, Luizianne encosta e Wagner mantém disputa aberta entre os três primeiros

Focus/Atlas: O placar muda com Elmano 48,5% x Ciro 48% e disputa entra na reta final em claro empate técnico

Entenda a super sexta-feira: três pesquisas e três fotografias em uma disputa que continua aberta

MAIS LIDAS DO DIA

Ceará elege 22 deputados federais para a próxima legislatura

Alece terá renovação de 56,5% a partir de 2027; PSB e PT formam maioria

Mercado imobiliário de Fortaleza supera R$ 5 bilhões em vendas até agosto

Dr. Acilon é o deputado federal mais votado da história de Eusébio

Augusto Cury diz que não vai declarar apoio no 2º turno e que não pretende continuar na política

Ciro Gomes mantém marca histórica: votação de 2006 para Federal equivaleria a quase 894 mil votos hoje

Grupo Marquise avança 99 posições no Valor 1000 e chega ao 2º lugar em Construção e Engenharia

A demonização da oposição; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

Em Fortaleza, a sucessão de 2028 começa agora; Por Ricardo Alcântara