Fortaleza, 1940; Por Angela Barros Leal

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“Ao final da tarde, meus pais levavam os filhos para apreciar o mar do alto do Passeio Público” – leio em um longo texto que me foi entregue para observações. “Era uma bela e suntuosa praça com vegetação exuberante, estátuas majestosas, circundada por passeios, provida de bancos com conformação anatômica, propiciando um relax para contemplar as belezas que se expunham.”

O autor vira o mar pela primeira vez aos 11 anos de idade, em 1940, e não cansaria tão cedo de contemplá-lo: “Esta aquarela fora levada aos rincões do cérebro da criança que eu era, e até hoje evoco sua visão”.

Chegara à Capital meses antes, vindo de Baturité, cidade pequena, habitada à época por não mais que 6 mil almas, e ainda se deslumbrava com a grandiosidade da metrópole ocupada por 182 mil habitantes, no início da primeira década de 1940.

Parado de frente para o mar, zumbia às costas do menino o tráfego dos automóveis, movidos a motor de explosão, o chiado dos bondes percorrendo os trilhos metálicos, e o que ele descreve como “o barulho ensurdecedor promovido pelo alarido das pessoas que circulavam pelas ruas do Centro.”

Tudo se configurava como um choque e um deslumbramento.

“Recostado no varandão, que se estendia por aproximadamente 200 metros, fitava, à minha esquerda, um enorme cilindro metálico, de cor preta. Ao indagar aos meus pais, fui informado tratar-se do gasômetro, depósito de gás que até bem pouco tempo atrás era utilizado para iluminação da cidade. Alguns lampiões artesanais ainda ornamentavam aquele belo local de lazer, e eram testemunhas do progresso pelo qual passara a Capital. Um pouco abaixo, uma enorme chaminé metálica confirmava a evolução da antiga vila de N.Sra da Assunção.”

Aquela chaminé, ele escreve, vista de longe, “indicava a empresa fornecedora de energia elétrica da cidade, constituindo-se também num indicador meteorológico: quando a fumaça soprava para Oeste, era um sinal de bom tempo. Se, ao contrário, a tendência era um deslocamento para o Leste, isso sinalizava mau tempo. E se a fumaça se elevava, significava que o tempo estava mudando.”

Entendiam os fortalezenses a leitura de tais sinais de fumaça, que haviam levado a chaminé a uma dupla utilidade: “Por alguns anos, antes do surgimento dos primeiros edifícios comerciais do Centro da cidade, a chaminé da Light era o seu barômetro.”

Ora vejam. Pequenos detalhes somente percebidos pelos residentes de Fortaleza, e que o menino absorvia com rapidez.

Logo abaixo do paredão do Passeio Público ficava a Praia Formosa, “por muitos anos encontro dos banhistas aos domingos e feriados, aproveitando o quebrar das ondas para o banho de mar. Destacava-se nesse período um clube que surgira em 1929, integrado por comerciários e bancários, de instalações simples, porém aconchegantes: o Náutico Atlético Cearense, onde se podia trocar a roupa de banho e servir-se de sanduíches, acompanhado de suco de fruta natural.” A Praia de Iracema, “ornamentada por um majestoso coqueiral”, enquadrava-se no seu campo de visão.

Um dos divertimentos do menino morador do Centro era usufruído na abertura e no fechamento das portas da loja do Seu Gabriel, vendedor de artigos religiosos. Apesar de ser um católico extremamente fiel, Seu Gabriel não confiava apenas na proteção divina quanto aos cuidados com sua loja: “Nada menos de 20 cadeados cerravam as duas portas”, conta o autor. “Era uma atração chegar às 7h da manhã, e ficar nas proximidades para assistir o Sr. Gabriel operar a abertura dos cadeados”…

Os trechos que transcrevo compõem a autobiografia ainda inédita de meu tio, o dentista George Barros Leal. São história e mais histórias, contadas por alguém sem pretensões outras além de narrar pontos importantes de sua vida, tendo Fortaleza como cenário e seus habitantes como personagens.

E fico pensando em quantas casas, em quantas cartas e cartões postais, em quantos registros familiares estarão guardadas memórias assim, capazes de resgatar pequenos trechos do passado dessa cidade que em breve chegará aos três séculos.


Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

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