Fóssil de 115 milhões de anos encontrado no Ceará revela sangue semelhante ao dos humanos

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Descoberta inédita no Cariri identifica vestígios de glóbulos vermelhos e moléculas ligadas à hemoglobina em dinossauro brasileiro. Pesquisa internacional publicada na PNAS abre novos caminhos para compreender a evolução do sangue, o metabolismo dos dinossauros e até a busca por vida fora da Terra.

O fato
Um dinossauro que viveu há 115 milhões de anos no território onde hoje está o Ceará acaba de protagonizar uma descoberta científica extraordinária. Pesquisadores identificaram, em seu fóssil, vestígios de sangue com características moleculares semelhantes às encontradas em aves e mamíferos, incluindo os seres humanos.

O protagonista é o Aratasaurus museunacionali, espécie de dinossauro carnívoro descoberta na região de Santana do Cariri, um dos mais importantes sítios paleontológicos do planeta.

A descoberta: pela primeira vez, cientistas conseguiram comprovar quimicamente a presença de moléculas derivadas da hemoglobina associadas a estruturas de glóbulos vermelhos preservadas em um fóssil de dinossauro.

O estudo foi publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), uma das mais prestigiadas revistas científicas internacionais.

A pesquisa foi liderada pela geoquímica Kliti Grice, da Universidade Curtin, na Austrália, e reuniu cientistas brasileiros do Museu Nacional, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e da Universidade Regional do Cariri (Urca), além de pesquisadores de instituições da Alemanha, Japão e Estados Unidos.

Por que importaA descoberta representa um avanço na compreensão da fisiologia dos dinossauros e pode ajudar a esclarecer uma das grandes questões da paleontologia: como esses animais regulavam a temperatura corporal e sustentavam suas atividades?

Durante muito tempo, a imagem popular dos dinossauros esteve associada à dos répteis atuais, animais que dependem fortemente das condições ambientais para regular a temperatura.

Entretanto, evidências científicas acumuladas nas últimas décadas indicam que muitos dinossauros apresentavam metabolismo elevado e mecanismos de regulação térmica mais próximos dos encontrados em aves e mamíferos.

O fóssil cearense acrescenta uma nova dimensão a essa investigação: a possibilidade de estudar diretamente vestígios moleculares do sangue de animais extintos há mais de 100 milhões de anos.

A presença dessas moléculas não comprova, isoladamente, que o animal mantinha temperatura corporal constante. Mas oferece um instrumento inédito para investigar seu metabolismo e sua fisiologia.

Sangue preservado por 115 milhões de anosO que os cientistas encontraram

As análises identificaram estruturas compatíveis com glóbulos vermelhos, conhecidos como hemácias, preservadas no interior de canais vasculares dos ossos fossilizados.

Os pesquisadores também encontraram aminoácidos associados ao colágeno mineralizado e moléculas de heme preservadas.

O heme é um componente fundamental da hemoglobina, proteína responsável pelo transporte de oxigênio no sangue.

A identificação química dessas moléculas constitui o principal diferencial da pesquisa.

Estudos anteriores já haviam descrito possíveis estruturas semelhantes a células sanguíneas em fósseis antigos. Entretanto, faltava uma comprovação molecular mais consistente.

No caso do aratassauro, os cientistas conseguiram associar as estruturas celulares à presença de compostos químicos derivados da hemoglobina.

O detalhe decisivo: os vestígios estavam preservados dentro dos canais vasculares, justamente onde se esperaria encontrar células sanguíneas.

Segundo Alexander Kellner, paleontólogo do Museu Nacional e um dos autores do estudo, a localização dos vestígios reforça a importância da descoberta.

Não se trata apenas de identificar substâncias orgânicas antigas, mas de encontrá-las em estruturas anatômicas compatíveis com sua função original.

Um dinossauro cearense que sobreviveu ao incêndio do Museu Nacional

A história do aratassauro
A trajetória do Aratasaurus museunacionali é tão singular quanto a descoberta científica que agora protagoniza.

Seu fóssil foi encontrado em 2008, durante atividades de mineração de gesso na região de Santana do Cariri, no sul do Ceará.

O material foi inicialmente encaminhado ao Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, instituição ligada à Universidade Regional do Cariri.

Em 2016, seguiu para o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, onde seria submetido a estudos mais aprofundados.

Dois anos depois, em setembro de 2018, um incêndio devastou grande parte do acervo do museu, destruindo milhões de peças e documentos científicos.

O fóssil cearense, entretanto, escapou.

Estava em uma área que não foi atingida pelas chamas.

Em 2020, uma equipe liderada pela paleontóloga Juliana Sayão descreveu oficialmente o animal como uma nova espécie.

Seu nome foi escolhido como homenagem ao Museu Nacional e à sobrevivência do fóssil ao incêndio.

Aratasaurus combina palavras de origem tupi e grega: ara, associado a nascimento; atá, fogo; e saurus, lagarto.

O significado é simbólico: “lagarto nascido do fogo”.

Agora, seis anos depois de sua descrição científica, o animal volta a ganhar destaque internacional por uma descoberta que pode transformar a maneira como os pesquisadores investigam a biologia dos dinossauros.

Pequeno predador, descoberta gigantesca

Como era o aratassauro

Apesar de sua importância científica, o aratassauro não estava entre os gigantes que costumam dominar o imaginário popular sobre os dinossauros.

Os pesquisadores estimam que o animal tivesse pouco mais de três metros de comprimento, aproximadamente 1,6 metro de altura e peso próximo de 35 quilos.

Era carnívoro e provavelmente apresentava comportamento ativo de predador.

As análises indicam que o exemplar encontrado no Ceará morreu ainda jovem.

Seu corpo teria sido depositado no fundo de um antigo lago, em um ambiente que os pesquisadores comparam, em determinadas características, à atual Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro.

Com o passar de milhões de anos, parte de seus restos foi preservada nas camadas sedimentares da região do Cariri.

Do animal, restou muito pouco: essencialmente parte de uma perna.

O fóssil não impressiona pela aparência ou pelo tamanho.

Sua importância está no que conseguiu preservar.

Uma pequena parte da anatomia do dinossauro acabou fornecendo informações que esqueletos muito mais completos jamais haviam revelado.

A descoberta começou com fragmentos quase invisíveis

Como foi possível encontrar sangue tão antigo?

A pesquisa só se tornou possível graças a uma combinação de circunstâncias e tecnologias extremamente sofisticadas.

Para identificar moléculas orgânicas preservadas em fósseis, os cientistas precisam analisar pequenas amostras do material.

O procedimento pode envolver a pulverização de fragmentos, o que representa um problema para a paleontologia: fósseis são raros, frágeis e, muitas vezes, insubstituíveis.

No caso do aratassauro, os pesquisadores encontraram uma solução.

Durante a preparação do fóssil no Museu Nacional, haviam restado pequenos fragmentos de material, alguns com dimensões próximas às de grãos de areia.

Essas partículas, praticamente insignificantes do ponto de vista visual, tornaram-se fundamentais para a investigação.

Quando Kliti Grice visitou o Museu Nacional, os fragmentos estavam disponíveis para análise.

Com técnicas avançadas de espectrometria utilizadas pela equipe da Universidade Curtin, foi possível identificar compostos químicos preservados no material fossilizado.

O resultado surpreendeu os cientistas.

Moléculas associadas ao sangue haviam resistido a processos geológicos e químicos durante aproximadamente 115 milhões de anos.

Uma nova fronteira científica
A descoberta desafia a ideia de que determinadas biomoléculas não poderiam deixar vestígios identificáveis após intervalos tão longos.

Isso não significa que o sangue tenha permanecido líquido ou biologicamente funcional.

O que os pesquisadores encontraram foram estruturas e componentes moleculares preservados por processos de fossilização.

A diferença é importante.

O avanço científico não está na possibilidade de recuperar sangue vivo de dinossauros, mas na capacidade de investigar sua composição química milhões de anos depois da morte do animal.

Essa possibilidade amplia significativamente o alcance da paleontologia molecular.

O que o sangue revela sobre os dinossauros?

A questão do metabolismo
Uma das grandes discussões científicas sobre os dinossauros envolve a regulação da temperatura corporal.

Animais endotérmicos, como aves e mamíferos, produzem internamente grande parte do calor necessário para manter suas atividades.

Isso permite sustentar níveis elevados de atividade física mesmo quando as condições ambientais variam.

Já muitos répteis atuais dependem mais intensamente de fontes externas de calor.

A fisiologia dos dinossauros, entretanto, era diversificada e não pode ser reduzida a uma única categoria.

Estudos anteriores, baseados em crescimento ósseo, anatomia e outras evidências, já indicavam metabolismo elevado em diferentes grupos.

A descoberta realizada no fóssil cearense oferece uma nova ferramenta para aprofundar essa investigação.

A análise de moléculas relacionadas ao sangue poderá contribuir para estudos sobre transporte de oxigênio, metabolismo e evolução fisiológica.

O objetivo é compreender melhor como esses animais conseguiam correr, caçar, percorrer grandes distâncias e manter atividades intensas.

A presença de heme, por si só, não diferencia animais de sangue quente e frio, já que ambos possuem hemoglobina. A relevância está na preservação molecular e nas novas possibilidades de investigação que ela oferece.

Do Cariri para a ciência mundial

O patrimônio paleontológico do Ceará

A descoberta reforça a posição da região do Cariri como um dos mais importantes centros de pesquisa paleontológica do mundo.

A Bacia do Araripe reúne depósitos fossilíferos conhecidos pela preservação excepcional de organismos que viveram durante o período Cretáceo.

Ao longo de décadas, fósseis encontrados na região contribuíram para pesquisas sobre dinossauros, pterossauros, peixes, plantas e outros organismos pré-históricos.

O caso do aratassauro acrescenta um novo capítulo a essa história.

Além de preservar estruturas anatômicas, os depósitos sedimentares do Cariri demonstram potencial para conservar vestígios químicos capazes de revelar aspectos da biologia de animais extintos.

A participação da Universidade Regional do Cariri na pesquisa também evidencia a importância das instituições científicas instaladas no próprio território onde os fósseis são encontrados.

O Ceará não é apenas o local de origem do material estudado. Integra a rede científica internacional responsável por transformar esse patrimônio em conhecimento.

A descoberta também destaca a importância da preservação dos acervos paleontológicos brasileiros e da cooperação entre museus, universidades e laboratórios de diferentes países.

A descoberta pode ajudar até na busca por vida fora da Terra

Vá mais fundo
As implicações do estudo ultrapassam os limites da paleontologia.

A identificação de moléculas orgânicas preservadas durante 115 milhões de anos pode contribuir para pesquisas sobre a resistência de compostos biológicos em condições ambientais extremas.

Esse conhecimento interessa diretamente à astrobiologia, área científica dedicada ao estudo da origem, evolução e possibilidade de existência de vida no Universo.

Segundo Martin Van Kranendonk, diretor da Escola de Ciências da Terra e Planetárias da Universidade Curtin, a pesquisa amplia a compreensão sobre a preservação de estruturas moleculares durante intervalos geológicos muito longos.

A questão é relevante para cientistas que procuram vestígios de vida antiga em outros planetas.

Se determinados compostos orgânicos podem deixar sinais identificáveis na Terra após milhões de anos, compreender os mecanismos dessa preservação poderá ajudar a orientar a busca por evidências semelhantes em ambientes extraterrestres.

Isso não significa que a descoberta no Ceará comprove a existência de vida fora da Terra.

Mas pode contribuir para o desenvolvimento de métodos capazes de identificar possíveis assinaturas químicas de organismos antigos.

O que vem a seguir
A descoberta abre novas possibilidades para o estudo de outros fósseis preservados em condições semelhantes.

A expectativa é que técnicas de análise molecular sejam aplicadas a materiais que, até recentemente, eram investigados principalmente por suas características anatômicas.

Pesquisadores poderão buscar vestígios químicos associados ao sangue, ao metabolismo e a outros processos fisiológicos de organismos extintos.

O avanço também poderá estimular novas pesquisas sobre os depósitos fossilíferos da Bacia do Araripe.

O desafio será identificar materiais adequados para análise sem comprometer a integridade de peças científicas raras.

Nas entrelinhas: a riqueza científica escondida no sertão cearense

A história do aratassauro reúne elementos extraordinários.

Um dinossauro carnívoro viveu há 115 milhões de anos no território que se transformaria no Ceará.

Seus restos foram preservados no fundo de um antigo lago.

O fóssil atravessou milhões de anos, foi encontrado em uma mina de gesso, chegou ao Museu Nacional e escapou de um incêndio que destruiu parte importante da memória científica brasileira.

Anos depois, fragmentos quase invisíveis de seus ossos revelaram vestígios de sangue capazes de ampliar o conhecimento sobre a evolução da vida.

A descoberta demonstra que o valor científico de um fóssil não depende de seu tamanho ou de sua aparência.

E reforça uma realidade frequentemente subestimada: o sertão cearense guarda informações sobre a história do planeta que ainda estão longe de ser completamente compreendidas.

O aratassauro, cujo nome significa “lagarto nascido do fogo”, sobreviveu simbolicamente a duas formas de destruição: à passagem de 115 milhões de anos e ao incêndio do Museu Nacional.

Agora, seu sangue fossilizado ajuda a contar uma história que começou muito antes da existência dos seres humanos.

E que pode contribuir até para a investigação da vida em outros mundos.

Fonte: O Globo, com informações de pesquisa internacional publicada na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

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