Generais, calem-se!

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Ricardo Alcântara é escritor e publicitário.

Por Ricardo Alcântara
Silenciar é, por vezes, um eficiente recurso de afirmação da autoridade. Quem fala, necessita; quem cala, se basta. A ausência da fala aguardada surpreende e alerta. Não dizer é, em certas circunstâncias, um modo de afirmar poder. É por isso que, em geral, autoridades militares são, em toda parte, módicas em sua expressão pública: a ausência de fala é simbólica porque realça a força potencial do seu agir.
Já estava em Sun Tzu, em sua milenar Arte da Guerra, a habilidade em simular e dissimular como fatores decisivos no que permitem ao contentor o recurso fatal de surpreender, alcançando o inimigo de um modo para o qual ele não se encontrava preparado para reagir. É este, somado à necessidade óbvia de se manter temido, o fundamento estratégico que perpetua a tradição do comandante enigmático.
Não por acaso, os militares em geral são pouco hábeis quando recorrem ao arsenal ambíguo da semântica verbal: a força da palavra está centrada na persuasão e militares são, ao contrário, formados para agir quando as possibilidades de convencimento já se esgotaram. Retórica é para diplomatas. Generais atiram. Neles, a hesitação psicológica que conduz à controvérsia tem a potência deletéria de um míssil inimigo.
Pois bem. Para expressar como este cidadão aqui se sente ao ver generais de Exército em discussões escatológicas com exóticos especialistas da horoscopia, como Olavo de Carvalho, recorro a um termo corrente: “vergonha alheia”. É o que sinto. Sinto a vergonha que eles deveriam sentir como dever moral. Vergonha de ver meu país exposto a um debate cuja qualidade intelectual pode ser medida pela metáfora nele mais usual: o órgão anal, de função fisiológica excretora.
Ficam lá, se comportando, naquele debate estéril, como vira-latas que se cheiram mutuamente nas esquinas a conferir quem fede mais! Seria pândego com qualquer personagem. Mas quando envolve a imagem institucional dos personagens de defesa, cuja preservação de sua autoridade é inerente à integridade da própria função, é mais grave.
Mas nada do foi dito aqui até agora faria avançar muito em nossa reflexão se não procurarmos compreender o que motiva politicamente toda essa imbuança. Vou tentar: os generais da reserva que foram para funções civis no governo não estão entregando a mercadoria que deles se esperava no núcleo duro da presidência eleita, a família Bolsonaro – e eu digo, felizmente!
Muitos temiam – e me incluo entre eles porque “cachorro mordido por cobra tem medo de linguiça” – que a presença numerosa no governo de lideranças militares incontestáveis como Hamilton Mourão, Santos Cruz, Augusto Heleno e Eduardo Villas Bôas poderia reforçar as inclinações autoritárias do presidente eleito. Ao atraí-los, é provável que Jair Bolsonaro tenha buscado apoio providencial para manobras de excepcionalidade – aquele “jipe com um soldado e um cabo” com que seu filho, Eduardo Bolsonaro, considerava suficiente para fechar o Supremo Tribunal, lembra?
Quando o guru de seus meninos trata membros do governo, militares ou não, nos termos colocados por Olavo de Carvalho e, logo a seguir, o próprio presidente anuncia que irá condecorar o pornógrafo com augusto louvor, não nos resta outra leitura, senão a de que o presidente discrepa do respeito à institucionalidade e do pragmatismo responsável com que os militares de seu governo tratam a coisa pública, agindo como conservadores confessos, mas sem concessões ao fervor ideológico de extrema-direita que encanta Bolsonaro em figuras patéticas como seus ministros da Educação e Relações Exteriores.
Tudo isso tem provocado inquietação na caserna. Muito embora não estejam mais no comando da tropa (são generais da reserva), sua presença numerosa no governo, pela expressão da liderança que exercem sobre a tropa, transfere para a imagem da própria instituição as consequências, positivas ou não, dos atos de gestão. Já tem muita gente ali nos quartéis achando que fizeram um mau negócio.
Bobagem supor que o avalista do presidente é o eleitor. É não. É o congresso nacional, como já demonstrado na elasticidade com que interpretou a gravidade das irregularidades fiscais cometidas por Dilma Rousseff. Com o desemprego na casa de 13,4 milhões de trabalhadores, a economia com o freio de mão puxado e as chantagens explícitas que as hienas do parlamento lhe fazem para curvar-se os interesses fisiológicos que jurou combater, o presidente Bolsonaro semeia ventos desnecessariamente quando sinaliza que o esquema militar de seu governo é descartável.
É não. É, ao contrário, o único elemento de apoio consistente de que poderá dispor nas horas difíceis. Todas as outras colunas de seu governo – bancadas temáticas, os alunos do professor Olavo, o entusiasmo liberal do empresariado, a TV Record – são volúveis porque todos se assentam sobre interesses que podem ser mais consistentemente representados por um personagem mais sensato. O que está faltando ali é básico: juízo. Se Bolsonaro imagina que o povo garantirá sua presença no Planalto, observe o nível de solidariedade com que ele reage à prisão de Lula. É suficiente.

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