
José Carlos Parente
Post convidado
O que realmente se sabe sobre o vírus SARS-CoV-2 e a doença Covid-19? Pouco se sabe sobre a doença em si e sobre a sua dinâmica de transmissão, mas esse saber é crescente a cada hora, a cada dia, devido os imensos esforços de pesquisadores de diversas áreas.
Devido as lacunas na ciência do SARS-CoV-2 e da Covid-19, os modelos matemáticos são muito úteis, mas sem esquecer que eles são falíveis e limitados – eles não são a realidade, eles tentam simular a realidade.
Nesta pandemia o mais famoso grupo de modeladores de doenças infecciosas do mundo falhou catastroficamente em sua terra natal e nos demais países, mas conseguiu alastrar o pânico no mundo ocidental, apesar deste grupo já ter apavorado esse mesmo mundo com suas projeções infladas e inconsequentes em 2002 (mal da vaca louca), em 2004 (gripe aviária) e em 2009 (gripe suína).
Os modelos fascinam por sua capacidade de produzir números, tabelas e gráficos precisos que apontam “soluções”. Eles projetam as mais diversas e complexas interações de variáveis, sejam elas naturais ou sociais. Portanto, o bom senso dos modeladores aliado ao conhecimento e experiência relevantes deve sempre guiá-los para minimizar os danos humanos, sociais e econômicos, que poderão resultar quando da adoção de suas recomendações.
Os modeladores institucionais, notadamente, devem ter muito claro em jamais buscar a glória efêmera do instante porque, mesmo não colocando a própria pele em jogo, as consequências de suas recomendações poderão “arrancar a pele” de muitos.
Por outro lado, para os políticos, nada é mais conveniente do que dizer que eles estão apenas seguindo “a ciência”, esquecendo que a verdadeira ciência está sendo construída no dia a dia, em duríssimas batalhas e ao custo de muitas vidas. Portanto, a fé na modelagem matemática desta pandemia, mesmo que guiada por qualquer conveniência, não pode prescindir de julgamento político preciso, sólido e abrangente, sem privilegiar a decisão mais fácil e conveniente nem esquecer as consequências mais dramáticas.
Na tomada de decisão há muito além da ciência em desenvolvimento, pois ela (a decisão) envolve as necessidades e as demandas dos diferentes segmentos da sociedade. Ao governante cabe incorporar o senso da ética e da moral na busca do equilibro entre os desafios imediatos e os que se vislumbram no futuro, uma vez que a “ciência” nos modelos não incorporam variáveis que equilibrem os danos visíveis e dramáticos da Covid-19 com os danos humanos, sociais e econômicos futuros que resultarão do “lockdown”.
A Covid-19 começou pelo Meireles em clara indicação de que não discrimina suas vítimas. Contudo, essa tese é parcialmente verdadeira: o vírus SARS-CoV-2 afeta mais o idoso, particularmente se ele tem comorbidade. Um aspecto relevante da Covid-19 é que os seus danos colaterais, motivados pelas medidas de controle da população, a exemplo de lockdown, afetarão desproporcionalmente os segmentos mais pobres e mais marginalizados da sociedade.
Ao governante, diante dessa vulnerabilidade, deve aliar ética e política em sua decisão e não disfarçá-la como um problema tecnocrático que pode ser resolvido por equações de um modelo matemático.







