O Cinturão da Energia como prioridade para o Ceará; Por Mac Trigueiro

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Governar é decidir no presente aquilo que só se tornará visível quando o mandato tiver terminado. Quem governar o Ceará a partir de 2027 enfrentará uma escolha decisiva: manter o Estado como produtor de energia renovável ou converter essa vantagem em indústria, computação, conhecimento e empregos qualificados. Na economia da inteligência artificial, a competitividade começa antes do algoritmo, na capacidade de entregar energia limpa, firme e previsível.

O Ceará conhece o valor da antecipação. No século XX, quando a insegurança hídrica limitava o desenvolvimento, respondeu com açudes, adutoras e eixos de integração. Essas obras não eliminaram a seca, mas mudaram a relação do poder público com a escassez: a água deixou de ser apenas fatalidade climática e passou ao centro do planejamento.

À agenda hídrica somou-se outra distância: a digital. O Cinturão Digital levou fibra óptica ao interior e, ao lado dos cabos submarinos que chegam a Fortaleza, ajudou a integrar o território cearense a redes de alcance global. As duas experiências ensinam que infraestrutura estratégica não pode ser improvisada depois que a demanda já chegou.

Hoje, a inteligência artificial tornou visível a materialidade da nuvem: território, energia e transmissão. Grandes centros de processamento operam em escala industrial, enquanto projetos em mercados maduros aguardam anos por conexão às redes elétricas. Isso abre ao Brasil uma oportunidade relevante, mas não automática nem permanente. Abundância energética só se torna vantagem quando a potência é entregue com segurança, custo competitivo e prazo definido.

O Ceará reúne condições raras: sol, vento, potencial marítimo, cabos submarinos, o Complexo do Pecém e posição geográfica privilegiada. A instalação, no Pecém, de um dos maiores empreendimentos digitais em desenvolvimento no País confirma essa vocação. Ainda assim, produzimos energia que nem sempre conseguimos conduzir aos novos centros de consumo. A transmissão e o acesso à rede tornaram-se condicionantes centrais. Energia que não chega não é potência, é paisagem.

Foi para organizar esse desafio que, na defesa pública realizada na UFC para ascender à classe de professor titular, com tese no campo do Direito Digital, formulei o conceito de Cinturão da Energia. Não é uma linha em torno do Estado nem uma obra isolada, mas um plano diretor que articula corredores de transmissão, subestações coletoras nas áreas de geração, subestações de atendimento nos centros de carga, armazenamento e pontos de conexão para grandes empreendimentos.

O Cinturão deve integrar a geração renovável do interior, e futuramente do mar, aos centros de carga do Pecém e aos territórios tecnológicos entre Caucaia e Fortaleza. Na tríade digital que orienta minha reflexão acadêmica, energia, conectividade e dados formam uma só arquitetura. Os dados dependem da conectividade, e nenhuma infraestrutura digital funciona sem energia. A soberania do século XXI também se mede pela capacidade de organizar essas bases materiais.

Essa agenda exige coordenação política no mais alto nível. O primeiro ano do próximo governo deve mapear as cargas futuras, definir corredores prioritários, antecipar estudos técnicos, fundiários e ambientais e pactuar uma agenda com o Ministério de Minas e Energia, a EPE, o ONS, a Aneel, o setor privado e as comunidades. A nova Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão (PNAST) organiza o acesso por temporadas e torna a antecipação decisiva. O Estado não outorga sozinho as grandes linhas nacionais, mas pode chegar a Brasília com projetos maduros e prioridades claras.

Essa política precisa dialogar com o Pecém, a ZPE, os parques tecnológicos, os polos industriais e a expansão urbana. Exige também rigor ambiental, segurança jurídica e repartição concreta dos benefícios. Um cinturão concebido apenas para transportar elétrons seria insuficiente. Sua legitimidade dependerá da capacidade de produzir inovação, qualificação, trabalho e prosperidade para a população cearense.

Campanhas gravitam em torno do imediato; infraestruturas atravessam governos e servem a gerações. O Ceará já aprendeu a antecipar obras de segurança hídrica e conectividade. Agora, precisa aplicar à energia a mesma visão de longo prazo. Se ligar o interior que produz ao litoral que conecta e processa dados, deixará de ser apenas fornecedor de potência e passará a sediar inteligência e valor. O futuro cobrará de nós menos a abundância recebida do que a capacidade de organizá-la. Governar o futuro é construir, enquanto há tempo, a infraestrutura que transformará energia em desenvolvimento compartilhado.

Machidovel Trigueiro Filho é professor titular da UFC e docente na área de Direito Digital, vice-diretor da Faculdade de Direito da UFC, secretário municipal de Ciência, Inovação e Desenvolvimento  Tecnológico de Caucaia e presidente da Comissão de Data Center e Cidades Inteligentes da OAB Ceará.

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