A COVID-19 chegou ao Brasil, o sacrifício comum ainda não. Por Igor Macedo de Lucena

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Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

Que a COVID-19 ou novo coronavírus é uma realidade todo o planeta já possui consciência. Com raras exceções não ocorreram atos de isolamento social ou lockdowns. Hoje talvez o que mais difere as nações e seus líderes são os estágios e principalmente os exemplos.

Estamos próximos de aprovar o chamado Orçamento de Guerra no Congresso Nacional e esse nome traz um simbolismo que tem sua raison d´être bastante especial para o setor público nacional (Executivo, Legislativo e Judiciário), seus líderes e o relacionamento com os agentes privados, que contemplam a maioria da sociedade, sejam empresas, classe média, informais, diaristas e todos os brasileiros que não fazem parte do Estado como agentes de poder ou de representação.

Ideologias à parte, seja você de esquerda ou de direita, liberal ou conservador, deparou-se em algum momento nas últimas semanas com o seguinte pedido do setor público: “por favor, fiquem em casa, renunciem sua renda em prol da defesa da vida e da saúde dos brasileiros. Como medida paliativa vamos tomar providências de ajuda social durante esse momento de crise. Precisamos do sacrifício e da ajuda de todos”.

A maioria da sociedade atendeu e continua atendendo esse apelo, apesar de não saber bem até quando. Em uma guerra, o sacrifício deve ser de todos, vamos todos juntos combater o coronavírus. Acontece que aos primeiros questionamentos sobre o porquê os agentes públicos não vão renunciar parte de sua renda, tal como o setor privado, para ajudar a poupar recursos no combate ao coronavírus, passamos a enxergar que o sacrifício não é de todos e aí que pode surgir um problema.

Diversas esferas governamentais, federais, estaduais e municipais, passaram os últimos dias na defesa para não haver descontos ou cortes dos servidores públicos, incluindo seus representantes eleitos, vários estados ainda chegaram a aprovar leis contra qualquer tentativa de corte de salários ou verbas. Esses atos são um acinte à população que não recebe seus salários oriundos do Erário, ao contrário, é o responsável por alimentá-lo.

A mensagem que se interpreta ao aprovar essas leis e negar veementemente o sacrifício público durante uma pandemia mundial é que existe uma parte da população que é imune, não ao vírus, mas a qualquer consequência dele na sua vida econômica. O resultado prático é que na ânsia de não se indispor com os servidores públicos, os líderes políticos geram na população um sentimento de revolta, pois podem se sentir enganados. O pensamento dos cidadãos passa a ser de sacrifícios para alguns, e não para todos, o que pode se traduzir em traição, em enganação.

Ao anunciar o isolamento social na Nova Zelândia, a primeira-ministra Jacinda Ardern comunicou o corte de 20% dos seus vencimentos e de sua equipe para mostrar ao povo daquele país que o sacrifício de deixar seus trabalhos, seus negócios e diminuir sua renda será feito por todos. O exemplo na guerra é fundamental, como nos ensinou Winston Churchill, todos temos que contribuir com a nossa “fair share of blood”.

Com esse tipo de “exemplo” do setor público, já vemos parte da população que vai as ruas pois pensa da seguinte maneira: “se os servidores públicos não tiveram nenhum tipo de redução nos seus salários, por qual motivo preciso abrir mão dos meus rendimentos?” ou “por quê preciso abrir mão das minhas receitas se os nossos líderes não dão o exemplo?”.

Dificilmente alcançaremos os 70% de isolamento se a mensagem transmitida continuar errada.

Tanto em 1945 quando em 2020, tão importante quanto as ações, é a mensagem transmitida.

Exemplos contam.

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