O declínio da civilidade, por Rui Martinho

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

O chefe de governo da Itália trocou insultos com o chefe de Estado da França. O presidente Donald Trump está longe do uso moderado da lingagem. O líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un não mede palavras quando ataca desafetos. Nicolás Maduro se notabiliza pelo “heroismo” verbal desaforado. Os parlamentos tornam-se cada vez mais palco de cenas deploráveis. Homens de Estados comportam-se como se tratassem com desafetos, ao invés de adversários. Políticos em posições secundárias na estrutura de poder, em muitos casos, adotavam comportamento pouco civilizado. Hoje, porém, chefes de governo e de Estado estão aderindo a tais práticas. Até magistrados das mais altas cortes de Justiça tornaram-se viperinos.
Não estamos tratando de protocolo de boas maneiras, mas de procedimentos políticos intimamente relacionados com a governabilidade. Formalidades são adotas desde sempre, em ambientes nos quais se travam embates políticos e institucionais, para funcionar como algodão entre cristais, limitando a radicalização. A linguagem forense e a parlamentar são cheias de “excelência” e outros formalismos por serem estes os espaços nos quais são travados duros confrontos de interesses e paixões.
As relações pessoais, por mais importantes que sejam as instituições, exercem alguma influência nos negócios de Estado. O encontro entre líderes existe em razão deste aspecto. A falta de civilidade atualmente praticada por personalidades situadas na cúpula do Poder ou por parte de aspirantes a tal posição, dificulta os entendimentos necessários à governabilidade. Desaforos parecem render popularidade nas redes sociais. A opção pelo estilo grosseiro, todavia, queima pontes, não contribui para a solução de problemas e não é certidão de virtude cívica.
Falar em guerra a todo momento, até em regiões pacíficas como a América do Sul, está se tornando corriqueiro. A irresponsabilidade pode ter consequências. Discursos aprisionam quem os profere. Some-se a isso outras mudanças, como a quebra de uma relativa ordem mundial na qual havia algum pudor quando se tratava de imiscuir-se em assuntos internos de Estado soberano. Assim o quadro fica ainda mais complicado. Direitos humanos, democracia, defesa do meio ambiente são alguns dos argumentos postos quando se praticam ingerência nos assuntos internos de terceiros países. A defesa de tão excelsos valores, todavia, sempre excepciona alguns casos. A China nunca foi submetida a pressão por poluir ou violar direitos humanos. Nem a Arábia Saudita tampouco. Guerra era algo que só se fazia após a devida declaração formal de beligerância. Hoje se fazem guerras não declaradas. Havia, entre as potências, o reconhecimento de áreas de influência umas das outras, mas estas agora estão em disputa.
Longos períodos de paz foram obtidos pelo uso da linguagem diplomática, pela não intervenção nos assuntos internos das nações suberanas, pela restrição dos atos de guerra até que o estado de beligerância fosse declarado e pelo reconhecimento, entre as nações, de algumas áreas de interesse havidas como legítimas. Guerras se tornam mais prováveis quando tudo isso é deixado de lado. Podemos falar de guerras entre nações, com o uso da força nos termos do sentido literal da palavra. Podemos ter relações conflituosas entre as forças políticas de uma mesma sociedade, configurando guerra em sentido figurado. A política é a arte do possível. A radicalização torna impossível o entendimento.
Fortaleza, 28 de fevereiro de 2019
Rui Martinho Rodrigues
rui.martinho@focus.com.br

 

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