O (des)encontro de Bolsonaro com Tancredi, por Leopoldo Cavalcante

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Leopoldo Cavalcante é criador/autor do @resenhador e articulista de cultura do Focus. Estuda Jornalismo na Cásper Líbero (SP) e Direito no Largo São Francisco (USP).

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Se quisermos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude. Fui claro? – Assim, o jovem Tancredi abandona o tio para ir à guerrilha revolucionária lutar pelo futuro da Itália que, se depender dele, voltará a ser parecido com o passado. Em O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, temos uma anatomia do poder e, principalmente, da transição de poder. Na minha leitura, o que o escritor italiano quis demonstrar ao retomar o passado da Itália da segunda metade do século XIX foi o fracasso anunciado de qualquer mudança, independente da boa vontade dos protagonistas.
Um exemplo. O jovem Tancredi é de classe nobre, sobrinho favorito do tio, o Príncipe don Fabrizio Salina, e se mete com os arruaceiros revolucionários vendo que a nobreza e o clero irão perder poder na sociedade porvir. Ele vai à luta, ganha famas e batalhas, volta para proteger o tio dos republicanos que, apesar de toda a vontade de derrubar o antigo sistema, ironicamente aceitam o pedido do jovem Tancredi de poupar o tio. A nobreza se relaciona com a burguesia ascendente. Na história, esses laços são formados por Tancredi e Angelica Sedàra, filha do comerciante rico de uma cidade do interior da Sicília. Preciso fazer uma breve digressão para lembrar que riqueza, no século XIX, não era o mesmo que modos e finesse.
Começou no século XVIII, com os pais do liberalismo clássico, a ideia da importância do comercio nas sociedades. A ideia de acumular capital sempre foi vista com maus olhos pela moral vigente. Os comerciantes, perto da nobreza, eram brutos. Afinal, qualquer pessoa dedicada a trabalhar com qualquer coisa, perto da nobreza, era bruta. Adam Smith foi um dos primeiros a defender a importância do egoísmo dos comerciantes para a prosperidade social. Com cada qual fazendo o seu para vender e comercializar em benefício próprio, a sociedade se especializa e se conecta, como uma teia de aranha em harmonia. Na visão clássica de liberalismo, a monarquia e a nobreza, tanto por serem pessoalistas quanto improdutivas, são um retrocesso. Hoje, a visão do comercio livre como uma forma social avançada é um dado da realidade; há dois séculos, nem tanto. E tinha outro motivo.
Os comerciantes, por participarem de uma classe inferior, não tinham necessidade de aprender as boas maneiras nobres. Quando Tancredi solicita ao tio para pedir ao pai de Angelica a mão da moça, o príncipe fica espantado com o quão bruto é o homem em frente dele. Malvestido, com resquícios de sujeira, falando num dialeto e andando sem qualquer refinamento. A única certeza dos nobres Salinas é a riqueza, as posses desse pequeno homem e a posição privilegiada no novo mundo da Itália reunificada. Aparentemente, o poder mudou de mãos e não há nada que se possa fazer além de lidar com a nova realidade.
Tancredi e Angelica se casam. A moça, inserida no mundo nobre, começa a frequentar os bailes da cidade. Com o tempo, todos os resquícios de classe inferior esvaem. Formou-se a nova nobreza. Não de sangue, mas de posses.
Nenhuma transição de poder é pacífica; mas quase nenhuma é realmente revolucionária. Trazendo para o Brasil do século XXI, que viu nos últimos meses dois ex-presidentes serem presos, vemos um processo mezzo revolucionário, ao menos no discurso e no porte. Foi eleito um presidente malvestido (a camisa falsificada do Palmeiras), com resquícios de sujeira (fezes redirecionadas para uma bolsinha na área externa da barriga), falando num dialeto (meio de Campinas, meio carioca) e sem qualquer refinamento (o pão jogado na mesa de café, as coletivas improvisadas, os discursos pífios).
No entanto, mesmo com suas idiossincrasias, o presidente Bolsonaro ainda tem que jogar o jogo da política, negociar com o Congresso e com a velha política. Felizmente (para este colunista meio liberal, meio elitista), poucas das suas ideias de cunho social e de política externa vão ser postas em prática. E por dois motivos: grande parte do eleitorado não compactua com o lado ideológico do governo, liderado por figuras como Ernesto Araújo, Ricardo Vélez e Damares Alves (todos ligados ao paleoconservador Olavo de Carvalho); e, mais relevante, as infantis repetições de Bolsonaro de negar participar da “velha política”
Para quem conhece o sistema, é evidente que não houve uma ruptura total do tabuleiro. Assim como na Itália na segunda metade do século XIX, a ascensão da nova classe dominante não levará ao enfraquecimento do antigo poder. Vale lembrar que em O Leopardo, Tancredi abandona a ala garibaldiana mais radical e se filia aos moderados quando o tempo de mudanças inevitáveis é passado. A república é instaurada e, com ela, todos os antigos vícios frutos das falhas humanas, presente em qualquer configuração de poder.
Apesar de todas as minhas discordâncias com José Dirceu, ele acertou quando defendeu que o PT (leia-se, a velha política) deveria deixar o país sangrar com Bolsonaro para voltar em um ambiente com menos rejeição, viabilizando-se como opção dos eleitores. Maquiavélico? Sem dúvidas. Não acho que o José Dirceu tenha coração, mas isso não significa que ele esteja errado. Acontece que os Tancredi, figuras que aderiram ao governo num primeiro momento por interesse próprio, abandonarão o capitão e remarão sozinhos o barco, como sempre fizeram. Algumas coisas vão mudar, mas poucas.
Assim como todo líder revolucionário cheio de boas intenções, a realidade fala mais alto e a popularidade tende a cair frente às previsíveis incompetências, um discurso raso e eternas burradas. Quem se fortalece com a queda do novo? O velho. Partidário que sou do tradicional, só posso repetir as palavras do jovem Tancredi: Se quisermos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude.
Fui claro?

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