O deserto dos homens sem ideias; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

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Oswaldo Aranha marcou a politica brasileira com frases eloquentes. Em pleno Estado Novo, por volta de 194O, saiu-se com este memorável desabafo: “O Brasil é um deserto de homens e de ideias”.

Estas palavras amargas retornam de quando em vez em decorrência da curiosidade investigativa de algum pesquisador desocupado sobre cousas esquecidas.

Talvez não fosse tão verdadeiras naquela época quanto parece ser agora.

Chegamos a este ponto, em mais de 80 anos transcorridos, por força de desacertos e tendências, fortalecidos com a ignorância imposta aos brasileiros e mantida cuidadosamente sob estrito controle do Estado e dos governos. Da monarquia dos Alcântaras a todas as Repúblicas que se vêm reproduzindo, saídas do “ovo da serpente”, na acepcão que Ingmar Bergman lhe empresta ao descrever o “contexto de a crise e medo”, na Alemanha de 1923, como prenúncio do nazismo.

A educação foi vista, no Brasil, desde tempos remotos como risco calculado, origem das mais graves insurreições sociais. A nossa primeira universidade mostrou a sua cara em 1923. A Universidade Nacional Maior de São Marcos, Peru, é de 1551, criada há mais de 4 séculos antes da UDF (Universidade do Distrito Federal, no Rio de Janeiro), de Anisio Teixeira.

Crescemos, assim, emparedados pelo catolicismo primitivo dos nossos ancestrais colonizadores, com ares fundamentalistas, burros e bravos, bacharéis e funcionários publicos. É com esta herança que estamos empenhados, na politica e nas artes do governo, na “reconstrução” de um país que se vê, com os pés presos ao passado, pretensiosamente moderno.

No plano da cultura, houve momentos de grandeza na literatura, na música, nas artes plásticas e na arquitetura.

Até o talento, a inspiração e a criatividade serem capturados por uma sanha identitária que pretende nos levar às fontes fundadoras das populações originárias, na ignorância do futuro que espreita as nossas fraquezas.

Antes da cultura “woke” ter nascido na Califórnia, nas vizinhanças de Berkeley, as “populações” “beatnicks”, a chamada “geração silenciosa” (1946/63), dera lugar a uma “subcultura” que se reproduziria “world wilde”. Despontaria em Paris, em Amsterdam, Londres e na América Latina e assumiria, por fim, neste lado do mundo, onde as coisas acontecem à reboque dos modismos passageiros, o jeitão peculiar de uma festa tropical…

A onda populista viria a seu tempo, no Brasil, como álibi para os movimentos totalitários, abrigados habilmente em acenos e promessas democráticas. Os partidos de massa assumiram a conotação de “trabalhistas” ou “de trabalhadores”, “socialistas, por assim dizer”, surfando na onda daEscola de Frankfurt… Na Alemanha, como na Rússia e na Itália, apresentaram-se como “nacional-trabalhistas”, “mencheviques” e “bolcheviques” e fascistas, com um ideário manifesto e vocação internacionalista [“proletários de todos os países — uni-vos”, no Manifesto de 1848. A designação “fascismo”, adotada por Mussolini, provém de “fasces”, um feixe de varas com um machado na ponta, indicação do poder sobre a vida e a morte.

Os símbolos adotados por essas facções ideológicas, assim como a própria designação, lembram união, força e poder. E a construção de um Estado forte com aspirações internacionalistas, a partir de sentimentos nacionalistas extremados.

De “deserto de homens e de ideias”, crise aberta e prolongada, sofre o Brasil, veias abertas, a assistir o atraso que se vai somando a falsos diagnósticos e a prognósticos fatais.

Pior não haveria de parecer: o país vai crescendo, a população amplia-se, a favelização alcança as grandes cidades e as pequenas, também. Os setores mais dinâmicos da economia estão sendo, calculadamente, asfixiados . Milícias privadas, no campo e na cidade, armam o canário de uma “reforma agraria”, baseada na coletivização das proprieades, no estilo e nos moldes que, na Rússia, sovietizada , deixaram o rastro trágico de alguns milhões de “vitimas da fome”, na trágica metáfora do hino da “Internacional” [1871].

A fome ganhou vitrina e discursos de ocasião, as instituições desfalecem sob formas autoritárias que fazem das leis e e da justiça instrumento coercitivo e dominador do Estado. O engodo politico, animado pelas lideranças tiradas de alianças espúrias, apaga os limites da verdade e da mentira como regra de governabilidade imposta.

O deserto parece ter crescido e se espraiado Brasil afora.

Os homens? Ora, os homens estão em busca de ideias por onde não irão encontrá-las… A ignorância impôs- se como medida de todas as vontades

Et pour cause.

Paulo Elpídio de Menezes Neto é articulista do Focus Poder, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação (Rio de Janeiro), ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC, ex-secretário de Educação do Ceará.

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