O exílio, a fuga e os poderes do Estado; Por Paulo Elpídio

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“Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado” Georges Orwell

A história do auto-exílio ou de exílio concedido não oferece registro que valha a pena relembrar. Na maioria dos casos são fugas, capitulação, rendição.
A história não faz justiça aos condenados, não os distingue, esconde, pela narrativa dos vencedores, o papel dos vencidos.

Napoleão ao longo de uma carreira de conquistas e batalhas, como guerreiro e estadista que foi, encheu-se de glórias. Mas não escapou à humilhação e ao opróbio de um desterro e exílio. Em Elba, foi-lhe dada a autoridade de governador, espécie de prefeito, que se ocupava das tarefas menores delegadas pelo Estado francês, como passatempo. Em Santa Helena, domínio britânico, viveu exílio de prisioneiro, por 6 anos, entre Waterloo e a sua mitre.

Os russos brancos fugidos dos bolcheviques, muitos deles dedicaram-se a gerir restaurantes e casas noturnas. Trotsky, no Mexico, antes do prosaico quebrador de gelo, deixou-se dominar pela paixão de Frida Kahlo; e os cubanos de Miami não deixaram exemplos de luta e engajamento que algumas atividades suspeitas. Muitos desses exilados nada deixaram de relevante em suas ações e militância exercidas à distância do perigo iminente. Tornaram-se exilados profissionais.

O suicídio de Getúlio, ao longo da raia de ditador a presidente constitucional, do ódio à celebração popular como líder longevo. A morte do ditador fez-se o pranto dos novos democratas. A doença de Café Filho e a branda resignação do poder por justa causa, não deixou rastro significativo. A fuga de Jango de supostos perseguidores fardados, em 1964, perdura sob amarga suspeita: queriam eles, de fato, alcançá-lo e trazê-lo a ferros para a Papuda, em Brasília? A renúncia de Jânio teria sido um lance de “fuga”, a exaustão de um governante problemático ou não terá passado de um projeto calculado de poder — mal sucedido?

Os golpes de Estado não se classificam unicamente pelo seu alcance “ideológico”, porém pelas circunstâncias que podem tê-los ajudado a tornarem-se “bem” ou “mal” sucedidos. Golpes “mal sucedidos” não apontam heróis na sua preparação. Exibem vilões, lesa-pátria, “fascistas”. Já os assaltos “bem sucedidos” trazem
os salvadores, os país da pátria, enrolados em uma coberta de “redentorismo”, espécie de sebastianismo revelado.

Nas democracias “relativas”, os “insurgentes” buscam, a todo preço, revestir o autoritarismo velado que os anima, pela fantasia ilusória de uma democracia bem controlada.

A “legitimação” do golpe de Estado faz-se pelas aparências institucionais, pelos tribunais e pelos controles a que recorrem. Pelo apoio das armas ou pela força da mídia.

Mandela encarou com coragem e determinação, 28 anos de prisão, sem saidinhas ou privilégios. Quando saiu do cárcere, foi lutar nas ruas contra a discriminação racial e ideológica, pelejar pela democracia — e conquistar o poder na África do Sul.

De Gaulle exilou-se na Argélia e na Inglaterra em busca de apoio para a formação de um exército de reconquiidta da França, sob ocupação nazista. Mussolini fugiu, disfarçado em cidadão, para escapar do castigo merecido — terminou pendurado pelas pernas com a amante.

Hitler fugiu com a ajuda da sua lugger.

No Brasil, muitos beneficiários das reservas do Estado, fugiram das mãos da justiça graças à delação negociada ou por artifícios processuais bem construídos.

Os 28 anos no exercício de sete mandatos parlamentares seguidos não foram aparentemente suficientes para iluminar a cabeça do capitão Bolsonaro na presidência e nas amarguras da planície política e do desterro eleitoral.

Convenhamos, a frente de combate armada pela esquerda de todo gênero e identidade para apagar uma suposta “direita”, constitui mobilização sem precedentes no Brasil, espécie de “progrom” ideológico contra movimentos conservadores e, até mesmo, animados por certos ímpetos da militância radical, enfiada nas vestes de uma nova diplomacia pacificadora…

O inesperado pedido de licença do exercício do mandato solicitado pelo deputado Eduardo Bolsonaro para liderar, dos Estados Unidos, a defesa da democracia brasileira, coloca na nossa persistente crise política um aspecto novo.

A tragédia do cadáver devoluto no terreno cediço dos poderes do Estado, é substituída nestes tempos modernos, demasiadamente modernos, por uma pantomima verbal de enorme alcance popular. Sem cadáveres, poderemos, entretanto, ter mártires e verdugos, ao gosto da plateia.

O autoexílio, a renúncia, a cassação de direitos políticos, por iniciativa própria ou por medida profilática, adotada pelos poderes constituídos, são formas variadas e distintas de evicção democrática.

Paulo Elpídio de Menezes Neto é articulista do Focus, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação (Rio de Janeiro), ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC, ex-secretário de Educação do Ceará.

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