O incêndio na floresta, por Rui Martinho

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Leão e gazela correm lado a lado, como se amigos fossem, durante um grande incêndio na savana. O perigo comum é maior do que o apetite do predador e o temor de sua presa. É preciso viver. É exigência que antecede o ato de caçar. A convergência de múltiplos fatores políticos, econômicos, sociais e até biológicos, todos desfavoráveis, tem o provável significado de uma situação sem precedentes nos últimos cem anos. Todas as nossas crises econômicas, com exceção da mais grave e mais recente, vivida nos anos de 2015/16/17, vieram de fora. Vivíamos, agora, uma tendência para o declínio da economia mundial. A União Europeia, a maior de todas as economias, claudicava. A poderosa economia chinesa, a maior economia industrial, continuava crescendo, mas passava do galope para a marcha. A Argentina, nosso maior parceiro no continente, seguia ladeira abaixo. Nós havíamos parado de cair. Começávamos timidamente, mas de modo promissor, a crescer.

A crise de 1929 veio dos EUA. Outras vieram da Ásia, do México, da Rússia, da Turquia, da Argentina, novamente dos EUA. Agora vinha de vários lugares. Mas apresentávamos um viés de alta, apesar da tendência mundial. Tínhamos os juros mais baixos da série histórica; a menor inflação dos últimos vinte e dois anos; a criminalidade apresentava um expressivo declínio; o déficit público em viés de queda; a reforma da previdência foi implementada; não tivemos escândalos motivados por corrupção no âmbito federal nos últimos quinze meses; o transporte ferroviário estava avançando como não acontecia desde a primeira metade do século XX; as invasões no campo declinavam.

Tropeços políticos, declarações intempestivas, atitudes grosseiras e inoportunas, problemas ligados a estrutura partidária não estavam impedindo os avanços citados. A falta de partidos autênticos, o deserto de líderes e a lacuna formada pela falta de programa claro e articulado não travaram a economia nem a administração. Apesar de somados ao comportamento dos predadores na savana política, não estavam impedindo os sucessos enumerados.

Eis que um virús, mais uma vez importado ou na condição de imigrante clandestino, veio atrapalhar. Parou ou restringiu a circulação de pessoas; a economia do turismo; aviação; entretenimento; empresas de transporte; bares; restaurantes. Quase tudo foi prejudicado. Autônomos foram duramente atingidos. Empresas mal saídas da crise e endividadas foram duramente golpeadas. A fragilidade dos nossos serviços de saúde tem de enfrentar o vírus que derrotou os bons sistemas da Europa. O coronavirus, os predadores da política, os problemas estruturais, a herança multissecular de problemas podem ser comparados a um grande incêndio na savana, ameaçando tanto leões como gazelas. É hora de copiar os animais. O predador deve cuidar de sobreviver, antes de caçar.

Não temos os rigores do inverno europeu, chinês ou americano, que potencializam a transmissão de doenças respiratórias pelo confinamento de pessoas em ambientes fechados. Estamos entrando no outono, apenas no Sul do país. O Nordeste e o Norte só têm verão. Contemplamos a experiência do hemisfério norte, onde o vírus chegou primeiro. Podemos aproveitar o aprendizado deles. O Macunaíma é novidadeiro, gosta de aderir ao que vem do primeiro mundo. Pessoas já estão usando máscaras, luvas, produtos de higiene e estão aceitando o confinamento social. Aproveitemos isso e celebremos pelo menos uma paz provisória durante o incêndio. Pode ser a diferença entre uma tragédia maior ou menor.

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