Por muito tempo, pensei que o valor de uma empresa residia no que ela possuía em termos de prédios, máquinas e estoque. Foi essa a noção que assimilei logo no início, e ela parecia condizer com a forma como as pessoas avaliavam a solidez de um negócio. Essa visão não desapareceu totalmente, mas já não explica todos os conceitos empresariais.
Essa mudança parece estar ligada à forma como as operações funcionam atualmente. Vendas, interações com clientes e o trabalho cotidiano geram um fluxo constante de informações que revelam padrões que antes permaneciam invisíveis. Assim, o verdadeiro ativo reside em servidores, e não no chão de fábrica.
Eu costumava dizer que os dados eram o “novo petróleo”, mas essa comparação perdeu a validade rapidamente. O valor do petróleo advém de sua escassez. Já os dados apenas se acumulam, e o desafio, na maioria das vezes, é extrair sentido deles. Empresas podem armazenar volumes imensos de dados e, ainda assim, tomar decisões à moda antiga podem conferir uma vantagem competitiva, desde que alguém realmente os analise. O que importa não são os dados em si, mas o que se consegue extrair deles.
A inteligência artificial acentua essa diferença, pois suas ferramentas conseguem identificar aspectos que passariam despercebidos por uma pessoa. Elas podem prever a demanda ou reduzir o desperdício, mas apenas quando os dados de entrada são de qualidade. Alimentar esses sistemas com registros ruins gera decisões equivocadas que aparentam precisão, mas pode ser pior do que não ter sistema algum. A regra básica parece ser: a qualidade de uma decisão não pode superar a qualidade da informação que a fundamenta.
Uma vez que os dados passam a ser considerados um ativo, a forma como são gerenciados deixa de ser apenas uma questão técnica. Regras de armazenamento, acesso e proteção tornam-se decisões estratégicas de gestão. As empresas que levam isso a sério e empenham-se em manter os dados utilizáveis e seguros. Essa escolha diferencia aquelas que apenas acumulam informações daquelas que realmente as utilizam para obter vantagem competitiva.
O efeito prático manifesta-se na agilidade e no planejamento. Os mercados mudam, e algumas empresas percebem essas alterações mais cedo, identificam riscos com antecedência ou conhecem melhor seus clientes. Em cenários de margens apertadas, esse tipo de vantagem torna-se mais relevante do que nunca.
O aspecto físico continua sendo importante, é claro. No entanto, a parte que mais cresce reside na compreensão extraída do fluxo diário de informações. Os dados não substituem pessoas nem planos; contudo, as empresas que descobrem como utilizá-los acabam construindo um diferencial difícil de ser copiado.
Por Marcos Moreira
Doutor em Administração de Empresas pela UNIFOR, formação em Inovação tecnológica por Harvard, CEO da Up Owl e colunista de Gestão e Inovação da Focus Poder.







