O que é a nova Guerra Fria? Por Igor Lucena

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Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

Após o início da disputa comercial entre a China e os Estados Unidos, iniciada pelo presidente Donald Trump, muito se falou sobre a possibilidade de entrarmos em uma nova Guerra Fria. Mas será que esse termo é correto de ser usado? A Guerra Fria foi um período de importante conflito ideológico liderado pelos Estados Unidos e a União Soviética entre os anos de 1947 e 1991, época em que blocos de poder disputavam a hegemonia mundial.

Entretanto, esse termo “Nova Guerra Fria” acredito que esteja incorreto sob o ponto de vista analítico, pois o que ocorreu no século passado foi uma disputa hegemônica entre os modelos de produção e organização política, de um lado o bloco capitalista liderado pelos Estados Unidos, com a Europa ocidental e o Japão exercendo maior força, e do outro lado o bloco comunista liderado pela União Soviética, pelo leste europeu e a China. A principal disputa dessa guerra era para solidificar um dos dois modelos de produção e controle político dos Estados. Ocorria um duelo entre capitalistas e comunistas pelo controle do planeta.

Com a vitória do capitalismo como sistema hegemônico de produção, até mesmo algumas nações que mantiveram o sistema comunista de organização política como a China e o Vietnã adotaram o sistema capitalista em suas economias, criando o que chamamos de sistemas híbridos como “capitalismo de Estado” ou “Estados iliberais”. O que ocorre hoje entre a China e os Estados Unidos é, talvez, o ápice de uma nova disputa, em que o capitalismo continua hegemônico no planeta, contudo ocorre uma disputa no âmbito da política e não da economia.

Neste caso, ocorre que acompanhamos nações que nem sempre operam em bloco, mas possuem características similares que as fazem ser conhecidas como nações do “Capitalismo Autoritário”, exercendo um considerável controle do poder político, seja por modelos de ditadura, como ocorre na China ou na Arábia Saudita, ou em nações iliberais, como a Rússia e o Belarus. Essas nações entendem que o capitalismo é de fato o melhor sistema existente para seu desenvolvimento e para o aumento da sua riqueza, poder e influência, contudo ao mesmo tempo desprezam a ideia de processos democráticos ou alternância de poder.

Por outro lado, acompanhamos as nações que formam o bloco ou os blocos do “Capitalismo democrático”; são nações que lideraram o processo de solidificação do capitalismo durante a Guerra Fria e hoje têm suas políticas internas e processos de decisão baseados na democracia e no “rule of Law”. Há uma visão de que o capitalismo e a democracia são processos necessários para a riqueza, para o poder e principalmente para a diminuição da desigualdade e dos processos de integração das minorias. Aqui nos referimos aos Estados Unidos, à União Europeia, à Coreia do Sul, ao Japão e a outras nações da América Latina, como o Brasil e o Chile.

Estamos sim dentro de um momento de disputas, porém acredito que estamos longe do que foi a Guerra Fria do século passado. As ameaças bélicas são improváveis, apesar do aumento de gastos militares. Hoje não existe mais a disputa sobre o modelo de produção social. O capitalismo é hegemônico em todo o planeta, até mesmo em nações ‘fechadas’, como Cuba e Coreia do Norte. Ao que assistimos diariamente é uma disputada pelo modelo de administração política dos Estados. De um lado, um modelo liberal; do outro, um modelo autoritário. O objetivo dessa disputa é mostrar para a população do planeta qual modelo é o mais eficiente para melhorar a vida da população no âmbito material, aumentando o poder do seu Estado, bem como sua influência nas disputas ao redor do planeta.

Nessa disputa, a China e os países árabes são a maior ‘vitrine’, pois apresentam crescimentos anuais robustos e uma melhora considerável na qualidade de vida da população em um sistema que muitos podem considerar capitalista selvagem e sem nada de democracia. A importante questão que se impõe é: a população de uma nação trocaria seus direitos individuais e seu sistema democrático por uma melhor qualidade de vida? Essa pergunta nunca será feita de maneira direta, mas nas entrelinhas a expansão de modelos de capitalismo autoritário expõe essa indagação.

Pessoalmente, acredito que existem direitos e princípios que são inalienáveis e que nunca devem ser relativizados a troco de “fazer justiça” ou de melhorar a qualidade de vida para todos. A democracia, a república, a liberdade individual e o direito de propriedade são alguns dos princípios que devem nortear os liberais, por isso devemos defendê-los até a morte, se preciso.

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