Michelle Bolsonaro e o tribunal da internet. Por Ricardo Alcântara

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Ricardo Alcântara é publicitário e escritor. Foto: Divulgação

Tomo aqui um fato bem recente para exemplificar, apenas porque a oportunidade é emblemática, como é grande o desafio das sociedades em sua necessidade de desenvolver capacidade crítica diante do fenômeno contemporâneo das redes sociais, um amplificador potente do que a civilização tem de melhor e pior.

A primeira-dama, Michelle Bolsonaro, tem sua origem social na baixa classe média das comunidades periféricas de Brasília, onde as famílias têm meios de contenção mais frágeis diante da realidade potencialmente desagregadora.

Daí que sua família é um manual de maus costumes: a avó é traficante e a mãe estelionatária. Um tio é pedófilo e outro, Miliciano. Tudo devidamente apurado em inquéritos policiais. Um ambiente tóxico.
Diante de tudo isso, cedo ela tomou a decisão que lhe pareceu mais certa ou, talvez, a única que lhe restava: resolveu sobreviver. Fugiu da tempestade. Foi cuidar da própria vida.

Agora, a avó, com quem houvera rompido relações há uns vinte anos, quando era ainda assalariada e solteira, morreu de covid em condições miseráveis e Michelle – é assim que a coisa funciona por lá – tem sido justiçada nas redes sociais por não ter prestado ajuda especial à avó (uma mendiga, lamentavelmente).

É interessante observar: quando alguém com poder trata seus parentes com privilégios, oferecendo a eles os favores dos hospitais privados, é tratado como desonesto. Por outro lado, se permite que seus familiares usem os mesmos serviços públicos de saúde oferecidos a 92% da população, é visto como cruel, ingrato, desalmado!

Nenhum de nós conhece os meandros da intimidade familiar da mulher do presidente para fazer julgamentos implacáveis. E juízes de sofá costumam julgar queridinhos com mais condescendência do que aos odiados, a quem reservam critérios de um rigor que provocaria náuseas a um Talibã.

Ao fim, os que se dedicam a justiçamentos públicos e agora trucidam a mulher do presidente estão falando muito mais de quem realmente são do que propriamente dela, cuja vida privada nenhum de nós conhece coisa alguma. Ninguém é obrigado a aceitar sua família como uma sentença quando a conduta de seus membros o coloca em situações de risco.

Ao casar com o deputado federal de cujo gabinete era funcionária, Michelle Bolsonaro se tornou receptora contumaz de benefícios decorrentes de crimes de peculato associados a lavagem de dinheiro com fortes indícios de conluio com matadores de aluguel das milícias. Em qualquer país sério do mundo – o que, definitivamente, não somos – essa gente já estaria no banco dos réus.

Isso é vida pública! Isso é da minha conta. Porque isso é dinheiro meu, pago com um terço dos meus dias trabalhados. É assunto meu porque afeta as normas que me determinam um padrão de conduta. Se eu, como cidadão, compreendo que a regularidade de seu cumprimento é fundamental para minha segurança, devo exigir providências.

Família? Já tenho a minha para cuidar. E se tivesse que me ocupar com outra, optaria por uma mais fácil porque a da Michelle nem ela conseguiu dar conta. O sapato que me aperta os calos é outro.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Atlas/Focus: dobradinha Cid-Luizianne soma 59,6% dos votos válidos para o Senado

Atlas/Focus: Elmano 49,9% x Ciro 49,6% dos votos válidos; Ceará chega à urna separado por um fio

Focus/Atlas: Aprovação de Elmano vira a favor; Avaliação do governo melhora, mas continua dividida

Atlas/Focus: Cid e Luizianne nas duas primeiras posições no Senado; dupla abre vantagem sobre Wagner e Alcides

Atlas/Focus: Elmano avança entre os mais velhos e nas faixas de maior renda; Ciro concentra vantagem entre jovens

Atlas/Focus a seis dias da eleição: Elmano 49% x Ciro 47,6%

Coligação de Ciro Gomes tenta barrar pesquisa Atlas/Focus, mas TRE rejeita e impede censura

Atlasintel: A polícia e a confiança que ainda resiste

Atlas/Focus: Lula mantém vantagem larga no Ceará, mas avanço de Flávio reduz distância

Atlas + Focus: Cid lidera consolidado, Luizianne encosta e Wagner mantém disputa aberta entre os três primeiros

Focus/Atlas: O placar muda com Elmano 48,5% x Ciro 48% e disputa entra na reta final em claro empate técnico

Entenda a super sexta-feira: três pesquisas e três fotografias em uma disputa que continua aberta

MAIS LIDAS DO DIA

Veja os governadores eleitos em todos os estados

Sarto repete o fim de Juraci: derrota eleitoral encerra ciclo político

Ceará elege 22 deputados federais para a próxima legislatura

Alece terá renovação de 56,5% a partir de 2027; PSB e PT formam maioria

Mercado imobiliário de Fortaleza supera R$ 5 bilhões em vendas até agosto

Dr. Acilon é o deputado federal mais votado da história de Eusébio

Augusto Cury diz que não vai declarar apoio no 2º turno e que não pretende continuar na política

Ciro Gomes mantém marca histórica: votação de 2006 para Federal equivaleria a quase 894 mil votos hoje

Grupo Marquise avança 99 posições no Valor 1000 e chega ao 2º lugar em Construção e Engenharia