Política: A arte de engolir sapos e ainda ter de expeli-los vivo. Por Aldairton Carvalho

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Por Aldairton Carvalho

“Política é a arte de engolir sapos e ainda ter de expeli-los vivos.”

Costumo usar essa frase quando alguém me pergunta por que a política é tão complicada. A resposta é simples: porque ela é feita por pessoas. E onde há pessoas, há divergências, interesses, vaidades, expectativas e conflitos.

Quem observa a política de fora muitas vezes imagina que tudo poderia ser resolvido com um pouco mais de firmeza ou coragem. Como se bastasse um governante, um deputado ou um prefeito querer fazer algo para que aquilo acontecesse. A realidade é muito diferente.

Na política, quase nada é construído sozinho: uma proposta depende de apoio. Um projeto depende de votos. Uma gestão depende de articulação. Muitas vezes, para aprovar uma medida considerada importante, é necessário sentar à mesa com quem pensa diferente, ouvir críticas duras, fazer concessões e encontrar um ponto de equilíbrio que agrade parcialmente a todos e plenamente a ninguém.

É exatamente aí que surgem os famosos sapos.

São as situações que o político preferia evitar, as alianças que não parecem ideais, as negociações desgastantes e os acordos que, vistos isoladamente, podem até parecer contraditórios. Porém, sem eles, boa parte das decisões simplesmente não sairia do papel.

O problema é que o cidadão normalmente vê apenas o resultado final. Não vê as reuniões, as resistências, os vetos, as pressões econômicas, partidárias e regionais. Não vê quantas vezes uma proposta precisa ser ajustada para conseguir sobreviver ao processo político.

No Brasil, essa realidade é ainda mais intensa, por sermos um país continental, marcado por diferenças econômicas, culturais e sociais profundas. O que é prioridade para uma cidade do interior do Nordeste pode não ser para uma capital do Sul. O que atende um setor produtivo pode gerar resistência em outro. Governar um país assim exige capacidade de diálogo permanente.

Nos últimos anos, outro fator passou a dificultar ainda mais esse ambiente: a polarização.

A política sempre teve conflitos. Isso é natural e faz parte da democracia. O que mudou foi a crescente dificuldade de conviver com quem pensa diferente. Em muitos casos, qualquer tentativa de diálogo passou a ser interpretada como fraqueza. Qualquer acordo virou sinônimo de rendição. Qualquer gesto de aproximação é visto com desconfiança.

Mas a história demonstra justamente o contrário, pois as grandes transformações nacionais nasceram da capacidade de construir convergências. Nenhuma democracia sólida se sustenta apenas sobre vencedores e vencidos. Em algum momento, é necessário conversar, negociar e construir pontes.

Por isso a segunda parte da frase é tão importante.

Na política, não basta engolir os sapos. É preciso expeli-los vivos.

A expressão pode parecer bem-humorada, mas revela uma verdade conhecida por qualquer pessoa que já ocupou um cargo público. O adversário de hoje pode ser o aliado de amanhã. A divergência de uma votação não significa necessariamente uma ruptura permanente. Quem destrói todas as pontes acaba descobrindo que, mais cedo ou mais tarde, precisará atravessar um rio sem ter por onde passar.

Talvez por isso a política seja uma das atividades mais incompreendidas da vida pública. Ela exige convicção, mas também prudência. Exige firmeza, mas igualmente capacidade de ouvir. Exige liderança, mas também disposição para ceder quando o interesse coletivo assim recomenda.

No fim das contas, a política não é a arte de vencer todos os debates. É a arte de tornar possível aquilo que, sem diálogo e negociação, permaneceria apenas como discurso.

Aldairton Carvalho é advogado, pós graduado em Ciência Política, mestrando em Ciência Política pela Universidade de Lisboa, presidente do IBGOV- Instituto Brasileiro de Governança e CEO da Infinity Tokens tecnologia

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