Seu Leite; Por Augustino Chaves

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Seu Leite, ladeado pelos então estudantes do Direito-UFC, Augustino Chaves. Dimas de Oliveira Costa e Felipe Reis.

Final de tarde no despovoado prédio da Faculdade de Direito. A greve estendia-se. Os lugares que recebem e circulam tantas e tantas pessoas, lugares animados, roupas coloridas, vozes, em constante vaivém, ressentem-se dos espaços vazios. Essa outra atmosfera, entretanto, se me apresentava em forma de oportunidade a ser bem vivida: a Faculdade, naquele final de tarde, era minha.

Deixando a Biblioteca, onde havia passado a tarde, súbito vi inesperada cena: aqueles dois senhores, tão distantes em tudo por tudo, em contínua conversa. Seu Leite, o septuagenário livreiro, do lado de dentro de seu tão modesto espaço, improvisado embaixo da escada, onde exercia seu precário comércio de livros; à sua frente, o todo poderoso professor, que mandava e desmandava, que pontificava no cargo de acusador, e daquela posição nada parecia lhe escapar; cinquentenário, aparentava indefinidamente mais idade. Os dois estavam em pé, bem próximos, separados apenas por aquele baixo balcão onde se exibiam os livros à venda. Sem ser notado, esperei. A conversa seguia entre os dois.

Com a saída do interlocutor, rápido cheguei a Seu Leite e perguntei-lhe, sabendo-lhe velho militante comunista, sobre onde ele buscava paciência àquela conversa com o mais projetado elemento da direita na nossa Faculdade, em tempos de ditadura. A Faculdade era dele. Dele emanava essa certeza: a Faculdade era dele. De determinada perspectiva ele não estava equivocado: era dele. Afinal, promovia ou vetava a entrada para ser ou não ser professor daquela Casa. Afinal, ele indicava o Diretor. Afinal, ele desfilava em seu reluzente Dodge Dart. Afinal, ninguém queria ser enredado em situação que lhe fosse contrária.

Seu Leite respondeu-me: ele não é de direita. Ele necessita de se confundir com o poder, seja lá qual for. Necessidade de sua falhada estrutura emocional.

Seu Leite gostava da vida. Não carregava ressentimentos, estava livre. Velho militante do PCB, foi preso, conheceu a crueldade e as dores da tortura física. Mas seu sol interior era chama sempre acesa. Não alteava a voz. Antes mostrar outra perspetiva do que martelar na ladainha de convencimento. O mesmo bom humor todos os dias. E esse bom humor diário, aquele sorriso, foi cativando-me. Sabia bem a dádiva da vida, sim, isso ele sabia bem, isso era um prazer seu, o seu prazer, que ninguém no mundo lhe tomaria.

Formado em Economia. Deputado Estadual em Pernambuco, sua terra natal.

Bem casado, pai de quatro filhos. Havia andado pelo vasto Mundo: Lisboa, Paris, Moscou. Em Moscou havia submetido-se a sério e bem concluído tratamento de saúde.

Era anos luz distinto dos militantes de esquerda que fui mais ou menos convivendo com o passar dos anos: sua motivação, configurava, em nítida prevalência, a lida por um mundo melhor. Não era subproduto de ressentimento. Nesse ponto incidia contradição com a história da esquerda asiática, herdeira de violências que atravessaram séculos e que mobilizou motivações em todos os recantos do planeta. Seu Leite não tinha contas pessoais com o mundo: o mundo nada lhe devia. O que ele queria era um mundo melhor.

Tampouco era cético, epidemia que grassou em tantos meios acadêmicos, como se não existissem caminhos, impotentes enquanto atores sociais.

Seu Leite não se apresentava como portador da verdade e das virtudes. Ele pensava a si mesmo.

Um dia me chamou. Um estudante de direita, de extrema direita, estava voltando à Faculdade, depois de afastamento, depois de intempéries. O movimento estudantil, dominado pela esquerda, era excessivamente hostil a esse rapaz. Seu Leite passou-me uma ordem: aproxime-se dele. De pronto repliquei: mas ele não é de direita? No que ele me ensinou: solidariedade não tem fronteira; antes de sermos de direita ou de esquerda, ou qualquer outra coisa, somos humanos. Então voltei com outra pergunta: e como faço para dele me aproximar? “Se escolhi você é porque você está apto à tarefa”. Somente agora agradeço-lhe: obrigado pela confiança a essa tarefa.

A dignidade, em suas roupas antigas, era-lhe uma tranquila aceitação do destino, sem nunca se humilhar perante ninguém, sem nunca se sobrepujar a ninguém. Vista de hoje, sua mensagem era: somos iguais.

Escrevendo essas linhas de memória, sou tomado da lembrança do semblante de Seu Leite, radiante ao lado de seu eterno líder, Prestes, em visita a Fortaleza. Lembrança que, ao mesmo tempo que me alegra, porque ele estava especialmente alegre, me enche de ternura por ele, talvez porque para mim aquela relação com o obtuso líder sintetize seu erro histórico, erro de uma época, erro de uma vida.

E jamais esquecerei o demorado e apertado abraço que lhe deu Celso Furtado.

De hoje não sei exatamente discernir os conteúdos que o Seu Leite, de viva e vasta cultura, me transmitiu, entrelaçados a vozes e livros que foram se somando, se ajustando. Mas sei exatamente do testemunho único que ele me legou. Seu Leite, ao lado de sua doce Dona Marta, honrou nossa cerimônia de casamento, na posição de Padrinho. Na ausência física de meu pai, olhava para Seu Leite e, naquele ritual religioso, era como se ele bem representasse meu pai. José Leite Filho. Hoje ele repousa no outro lado do tempo. E daqui, emocionado, envio-lhe profunda admiração, saudade e meu muito obrigado.

Augustino Chaves é escritor e advogado.

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