Sobre peso; Por Angela Barros Leal

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O mundo não foi feito para os gordos – constata minha cunhada, que assim se considera por estar uns 10 quilos acima do seu peso normal. Andou ansiosa, comeu além da conta, e agora ostenta esse tanto de sobrepeso que à primeira vista sequer se percebe.

Olha essa cadeira – ela aponta. Estreitinha. Pernas fininhas. Como é que vai me sustentar? Olha a largura dessa porta do lavabo. Como é que eu passo por ela sem me machucar?

Minha cunhada costuma viajar de avião. Viagens internacionais. E acabou de chegar de uma delas trazendo na bagagem uma sofrida vivência. A empresa norte-americana da qual ela era passageira estava iniciando a implantação de um novo sistema de compra de assentos, baseado no espaço ocupado pelo cliente. Ela testemunhara a violência do andamento. Daí a revolta.

Pelo que entendi, no momento do check-in o passageiro era avaliado pelo atendente, que em um golpe de vista decidia se aquela pessoa necessitaria ou não adquirir um segundo assento. Um segundo assento! – ela enfatiza, olhos arregalados em revolta.

Ou seja: caso o olhar avaliativo do atendente identificasse no cliente uma circunferência acima do que considerado “normal”, caso a disposição da carne nos braços, pernas e quadris do possível passageiro parecesse “invasiva” aos olhos do atendente, sugerindo que aquele corpo poderia se distribuir para as laterais do assento adquirido, a autorização para o embarque dependia da compra de mais um lugar.

Um absurdo! – ela esbraveja. Nem sequer havia no saguão uma cadeira igual à do avião, para testar o tamanho da pessoa! – ela reclama. A avaliação era totalmente subjetiva! Sem critério!

O limite para o atendente permitir ao cliente manter seu assento unitário era traçado pelo braço da cadeira. Ali ficava a linha de fronteira, além da qual toda ultrapassagem seria considerada invasão de território, sujeita a duras batalhas verbais.

Ela vira a confusão instaurada entre os passageiros mais volumosos, e temia pelo preço duplo que viria a ter que pagar em voos futuros, a partir daqueles quilos extra. Entendia o respeito ao passageiro vizinho, forçado a apertar-se contra corpo alheio, mas não era esse o ponto.

O ponto se encontrava na contínua e aparentemente imparável redução dos espaços internos das aeronaves. Onde antes, nos tempos áureos, existiam dois assentos, parecia que as companhias aéreas haviam conseguido implantar três, em um passe de mágica, cada um milimetricamente calculado para o encaixe anatômico de uma ossatura dada como esguia.

Fizeram a mesma coisa no corredor! – ela completa. Preciso andar de lado, para não esbarrar nas fileiras dos assentos! E quando me sento, meus joelhos encostam no queixo! – exagera, arrastando rumo ao quarto a minúscula mala de mão, na qual não deve caber mais do que um par de roupas íntimas e um mini-kit de higiene.

O assunto é polêmico. Sabemos as duas que se trata de um PPM – Problema de Primeiro Mundo, como se critica por aí, essa conversa que travamos sobre a escassez de espaço em avião. Para os que podem, nada mais que mera questão de desconforto, por curto período.

Pode ser, é verdade, mas o problema se reflete na pessoa, no ser humano punido pela empresa aérea, diante da plateia no saguão do aeroporto, por ser avaliado de público como G-O-R-D-O, palavra que se escreve em inegável rotundidade: um G rechonchudo, dois Os redondos, um D com a barriga pesando rumo ao chão. Alívio somente na magreza ágil do R.

Minha cunhada joga a micro-mala sobre a cama. E os elevadores? – volta a reclamar. Fui entrar no elevador e uma mulher lá dentro, uma histérica, me empurrou para fora gritando “Não cabe! Não cabe!” Uma obsessão com peso!

Houve um tempo histórico em que a gordura corporal sinalizava riqueza, digo a ela, em tom de consolo. Ainda restam culturas, em regiões da África, onde o matrimônio das mulheres e o poderio masculino se definem e se evidenciam no volume das carnes. O problema é geográfico.

Minha cunhada não aceita a argumentação histórico-cultural. Amanhã mesmo vai começar a dieta, o que em nada altera a nova política da empresa aérea, em processo de adoção também por outras empresas, nem a situação dos passageiros discriminados.

Daqui a pouco vamos ser pesados antes de entrar em um taxi ou um ônibus – ironiza. Ou vão cobrar pelo tempo de espera em escritórios e consultórios, pelo estrago que podemos estar causando aos sofás.

Não dê ideias, respondo a ela. Não duvido que tudo seja possível, nesse mundo que impõe tanto peso sobre nossos ombros.


Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

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